Crise asmática grave: insistir no broncodilatador ou intubar?

crise asmática grave

A crise asmática grave é uma das poucas situações do pronto-socorro em que o paciente jovem, que entrou falando, pode parar em minutos. O manejo depende de classificar a gravidade pelo pior parâmetro e de reconhecer cedo quem está cansando.

Um paciente com frequência respiratória de 35 que consegue deitar e não parece agitado já tem crise asmática grave. A classificação não segue a impressão geral, e sim o critério mais alterado, e essa regra simples evita subestimar quem chega aparentemente tranquilo.

crise asmática grave
Na asma, a saturação abaixo de 90% em ar ambiente é sinal de crise grave, mas a oximetria normal não exclui retenção de gás carbônico e fadiga.

Como reconhecer a crise asmática grave na chegada?

A avaliação inicial combina sinais clínicos, oximetria e, quando possível, pico de fluxo expiratório. O exame físico decide a conduta antes de qualquer resultado laboratorial.

Quais sinais definem a gravidade?

A tabela separa a crise grave da que ameaça a vida, porque a conduta muda entre as duas. A presença de um único critério já classifica o paciente na faixa mais alta.

Faixa Sinais clínicos Medidas
Crise grave Fala em palavras, senta inclinado para frente, agitação, uso de musculatura acessória FR acima de 30, FC acima de 120, SpO2 abaixo de 90%, pico de fluxo até 50% do previsto
Ameaça à vida Sonolência, confusão, tórax silencioso, exaustão Hipercapnia, bradicardia e hipotensão como sinais tardios

O tórax silencioso é melhora?

Não é melhora, e sim obstrução tão intensa que o ar não passa para gerar sibilo. Com broncodilatador, os sibilos costumam reaparecer, o que indica abertura das vias aéreas e confirma a gravidade inicial.

O que fazer na primeira hora da crise asmática grave?

Na crise asmática grave, o tratamento é simultâneo, e não sequencial: broncodilatador, oxigênio e corticoide começam juntos. A reavaliação em 1 hora define se o paciente melhora ou precisa de escalonamento.

Qual a sequência de medicações?

A ordem abaixo reflete o que reduz a obstrução mais rápido e o que tem efeito tardio. Ela também lembra que o corticoide precisa entrar cedo, porque leva horas para agir:

  1. oxigênio para manter saturação entre 93% e 95% no adulto, sem hiperoxia;
  2. salbutamol com espaçador ou nebulização a cada 20 minutos na primeira hora;
  3. brometo de ipratrópio associado ao beta-agonista, obrigatório na crise grave;
  4. corticoide sistêmico precoce, por via oral se o paciente deglute, ou venoso se não consegue;
  5. sulfato de magnésio 2 g por via venosa em 20 minutos quando a resposta inicial é insuficiente.

Sulfato de magnésio tem riscos?

Em paciente com função renal normal, o excesso de magnésio é eliminado pela urina e o nível sérico pouco muda. Em insuficiência renal ou anúria, a dose de 2 g pode acumular e causar bradicardia, hipotensão e depressão respiratória, exigindo dosagem sérica e monitorização.

crise asmática grave
A ausculta seriada mostra a resposta ao broncodilatador, e o tórax que fica silencioso em vez de sibilar indica obstrução extrema, não melhora.

Quando a crise asmática grave indica intubação?

A decisão de intubar é clínica e não espera a gasometria piorar. Rebaixamento de consciência, exaustão, tórax silencioso persistente e hipercapnia progressiva indicam via aérea definitiva.

Por que a PaCO2 normal é um alerta?

No início da crise, o paciente hiperventila e apresenta alcalose respiratória com PaCO2 abaixo de 35 mmHg. Uma PaCO2 normal ou subindo em paciente ainda taquipneico sugere fadiga, e a interpretação da gasometria arterial precisa considerar esse contexto.

Ventilação não invasiva ajuda?

A evidência na asma é mais fraca do que na DPOC, e a ventilação não invasiva só se tenta em paciente cooperativo, sob vigilância contínua. As indicações e contraindicações da VNI valem aqui, e a tentativa não deve atrasar a intubação de quem está exausto.

Como intubar e ventilar o paciente asmático?

O paciente em crise asmática grave é dos mais perigosos para intubar, porque a hiperinsuflação causa hipotensão logo após a ventilação com pressão positiva. O preparo inclui volume, vasopressor pronto e o maior tubo possível.

Qual droga usar na indução?

A cetamina é a escolha clássica pelo efeito broncodilatador e pela estabilidade hemodinâmica, e o etomidato é alternativa aceitável. A comparação entre as duas na intubação de emergência ajuda a decidir conforme o perfil do paciente.

Quais parâmetros evitam o aprisionamento de ar?

O objetivo é dar tempo para expirar, mesmo aceitando gás carbônico mais alto. Os ajustes iniciais seguem estes princípios, detalhados na revisão sobre estado de mal asmático do NCBI:

  • frequência respiratória baixa, para alongar o tempo expiratório entre os ciclos;
  • volume corrente reduzido, em torno de 6 a 8 mL/kg de peso predito;
  • fluxo inspiratório alto, encurtando a inspiração e aumentando a fase expiratória;
  • hipercapnia permissiva, tolerando pH mais baixo enquanto a oxigenação é adequada;
  • monitorização da pressão de platô e da auto-PEEP após cada ajuste.

Se a pressão arterial despenca logo após a intubação, desconectar o circuito por alguns segundos permite a saída do ar aprisionado. Pneumotórax hipertensivo entra no diagnóstico diferencial, e os parâmetros iniciais da ventilação mecânica precisam ser revistos.

Perguntas frequentes sobre crise asmática grave

As dúvidas abaixo aparecem com frequência entre plantonistas diante da crise asmática grave. As respostas resumem a conduta prática sustentada pelas recomendações atuais.

Radiografia de tórax é obrigatória na crise asmática grave?

Não é obrigatória para o diagnóstico de asma, mas ajuda a afastar pneumotórax, pneumonia e congestão pulmonar. Ela está indicada quando há suspeita de complicação ou falta de resposta ao tratamento.

Corticoide venoso é melhor que o oral?

Quando o paciente consegue deglutir, a via oral tem eficácia equivalente. A via venosa fica para quem tem rebaixamento, vômitos ou dispneia que impede engolir com segurança.

Adrenalina tem lugar na crise asmática grave?

A adrenalina intramuscular é indicada quando a crise faz parte de uma anafilaxia. Fora desse contexto, não substitui o broncodilatador inalatório.

Quando dar alta após a crise?

A alta é considerada quando os sintomas melhoram, a saturação se mantém adequada em ar ambiente e o pico de fluxo se aproxima do valor pessoal. O paciente sai com corticoide oral por poucos dias, tratamento de manutenção revisto e plano de ação escrito.

O que muda no tratamento de manutenção depois da crise?

A crise grave indica que o controle estava inadequado e que o tratamento precisa ser intensificado. As recomendações da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia orientam o uso de corticoide inalatório e a revisão da técnica inalatória.

Crise asmática grave: decidir cedo muda o desfecho

O plantão em que o asmático parecia estável, ficou calado no canto da sala e foi encontrado sonolento com PaCO2 de 50 é conhecido de muitos emergencistas. Na crise asmática grave, a decisão certa depende de reavaliar em ciclos curtos e saber quando o broncodilatador deixou de ser suficiente.

Classificação de gravidade, escalonamento terapêutico, via aérea e ventilação do paciente obstrutivo são treinados com casos reais na pós-graduação em Medicina de Emergência do Instituto CDT. O curso prepara o médico para intubar no momento certo, sem atraso e sem pressa.

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