{"id":206400,"date":"2026-10-14T19:00:00","date_gmt":"2026-10-14T22:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/institutocdt.com.br\/blog\/?p=206400"},"modified":"2026-09-24T10:00:51","modified_gmt":"2026-09-24T13:00:51","slug":"convulsao-febril","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutocdt.com.br\/blog\/convulsao-febril\/","title":{"rendered":"Convuls\u00e3o febril: o que muda quando a crise passa de 15 minutos ou volta em 24 horas"},"content":{"rendered":"<p>A convuls\u00e3o febril \u00e9 a crise convulsiva mais comum da inf\u00e2ncia e aparece, na maior parte das vezes, entre 6 e 60 meses, com pico perto dos 2 anos. Ela ocorre com temperatura igual ou acima de 38 \u00b0C, sem infec\u00e7\u00e3o do sistema nervoso central, dist\u00farbio metab\u00f3lico ou crise afebril pr\u00e9via.<\/p>\n<p>Na pr\u00e1tica, a crian\u00e7a costuma chegar ao pronto-socorro j\u00e1 fora da crise, sentada no colo, e a pergunta real do plantonista \u00e9 quanto investigar. Colher l\u00edquor, tomografia e eletroencefalograma de toda crian\u00e7a que convulsionou com febre gera iatrogenia, enquanto dispensar o exame neurol\u00f3gico cuidadoso deixa passar a meningite.<\/p>\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/institutocdt.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/out-convulsao-febril-1.webp\" alt=\"convuls\u00e3o febril\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><em>A febre que sobe r\u00e1pido durante uma infec\u00e7\u00e3o viral comum \u00e9 o gatilho mais frequente da crise, e investigar o foco infeccioso importa mais do que investigar o c\u00e9rebro.<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<h2>Como diferenciar convuls\u00e3o febril simples e complexa?<\/h2>\n<p>A classifica\u00e7\u00e3o muda a investiga\u00e7\u00e3o e a orienta\u00e7\u00e3o, e \u00e9 feita com dados da hist\u00f3ria que os pais ou o socorrista trazem. A tabela compara os dois grupos pelos crit\u00e9rios usados nas principais diretrizes pedi\u00e1tricas.<\/p>\n<table>\n<thead>\n<tr>\n<th>Crit\u00e9rio<\/th>\n<th>Simples<\/th>\n<th>Complexa<\/th>\n<\/tr>\n<\/thead>\n<tbody>\n<tr>\n<td>Tipo de crise<\/td>\n<td>Generalizada, em geral t\u00f4nico-cl\u00f4nica<\/td>\n<td>Focal em qualquer momento<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Dura\u00e7\u00e3o<\/td>\n<td>Menos de 15 minutos<\/td>\n<td>15 minutos ou mais<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Recorr\u00eancia<\/td>\n<td>N\u00e3o se repete na mesma doen\u00e7a<\/td>\n<td>Repete em 24 horas ou no mesmo epis\u00f3dio febril<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Recupera\u00e7\u00e3o<\/td>\n<td>Completa em at\u00e9 1 hora<\/td>\n<td>Altera\u00e7\u00e3o de consci\u00eancia ou d\u00e9ficit prolongados<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<h3>O que acontece fora da faixa de 6 meses a 5 anos?<\/h3>\n<p>Abaixo de 6 meses, crise com febre \u00e9 tratada como infec\u00e7\u00e3o do sistema nervoso central, malforma\u00e7\u00e3o ou infec\u00e7\u00e3o cong\u00eanita at\u00e9 prova em contr\u00e1rio, com l\u00edquor e imagem. Acima de 5 anos, a crise com febre tamb\u00e9m pede investiga\u00e7\u00e3o, porque o limiar maturacional que explica a convuls\u00e3o febril j\u00e1 n\u00e3o se aplica.<\/p>\n<h3>Uma \u00fanica caracter\u00edstica complexa muda a conduta?<\/h3>\n<p>Sim, basta uma delas para classificar a crise como complexa. Crise focal, dura\u00e7\u00e3o prolongada ou p\u00f3s-ictal arrastado indicam observa\u00e7\u00e3o mais longa, exame neurol\u00f3gico repetido e avalia\u00e7\u00e3o caso a caso de l\u00edquor, imagem e eletroencefalograma.<\/p>\n<h2>Quais exames pedir na convuls\u00e3o febril simples?<\/h2>\n<p>Na crian\u00e7a com crise simples e exame neurol\u00f3gico normal, a investiga\u00e7\u00e3o deve buscar a causa da febre, e n\u00e3o a da crise. Otite, infec\u00e7\u00e3o de via a\u00e9rea superior, pneumonia e infec\u00e7\u00e3o urin\u00e1ria s\u00e3o os focos habituais, e a <a href=\"https:\/\/institutocdt.com.br\/blog\/febre-sem-sinais-localizatorios-no-lactente-estratificar-risco-por-idade\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">febre sem sinais localizat\u00f3rios no lactente<\/a> segue estratifica\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria por idade.<\/p>\n<h3>Quando a pun\u00e7\u00e3o lombar \u00e9 obrigat\u00f3ria?<\/h3>\n<p>A <a href=\"https:\/\/institutocdt.com.br\/blog\/puncao-lombar-tecnica\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">pun\u00e7\u00e3o lombar<\/a> \u00e9 indicada sempre que houver rigidez de nuca, Kernig, Brudzinski ou outro sinal men\u00edngeo. Ela \u00e9 opcional entre 6 e 12 meses sem vacina\u00e7\u00e3o completa contra <em>Haemophilus<\/em> tipo b ou pneumococo e na crian\u00e7a j\u00e1 em uso de antibi\u00f3tico, que pode mascarar a meningite.<\/p>\n<h3>Eletroencefalograma, tomografia e laborat\u00f3rio ajudam?<\/h3>\n<p>Na crise simples, eletroencefalograma n\u00e3o prev\u00ea recorr\u00eancia nem epilepsia, e hemograma e eletr\u00f3litos de rotina n\u00e3o esclarecem a crise. As recomenda\u00e7\u00f5es sobre pun\u00e7\u00e3o, eletroencefalograma e imagem est\u00e3o resumidas no <a href=\"https:\/\/www.aafp.org\/pubs\/afp\/issues\/2011\/0601\/p1348.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">resumo da diretriz da Academia Americana de Pediatria<\/a>.<\/p>\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/institutocdt.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/out-convulsao-febril-2.webp\" alt=\"convuls\u00e3o febril\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><em>Rigidez de nuca, sinal de Kernig ou de Brudzinski ap\u00f3s a crise tornam a pun\u00e7\u00e3o lombar obrigat\u00f3ria, independentemente de a crise ter sido simples.<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<h2>Como tratar a convuls\u00e3o febril que n\u00e3o para?<\/h2>\n<p>A maioria das crises cede sozinha em menos de 5 minutos e chega ao hospital j\u00e1 resolvida. Quando a crian\u00e7a ainda convulsiona, o tratamento \u00e9 o de qualquer crise prolongada, com a mesma sequ\u00eancia de passos.<\/p>\n<ol type=\"1\">\n<li>Posicionar em dec\u00fabito lateral, aspirar secre\u00e7\u00f5es e ofertar oxig\u00eanio, sem colocar nada na boca;<\/li>\n<li>Medir glicemia capilar na primeira abordagem, porque hipoglicemia tamb\u00e9m causa crise;<\/li>\n<li>Aplicar benzodiazep\u00ednico se a crise passar de 5 minutos, como diazepam 0,2 a 0,3 mg\/kg venoso;<\/li>\n<li>Sem acesso, usar midazolam 0,2 mg\/kg intramuscular ou diazepam retal 0,5 mg\/kg;<\/li>\n<li>Repetir uma dose se necess\u00e1rio e escalar para anticonvulsivante de segunda linha se persistir.<\/li>\n<\/ol>\n<h3>Por que n\u00e3o fazer diazepam intramuscular?<\/h3>\n<p>A absor\u00e7\u00e3o do diazepam por via intramuscular \u00e9 lenta e imprevis\u00edvel, e a crise continua enquanto o f\u00e1rmaco n\u00e3o chega ao c\u00e9rebro. Sem veia, o midazolam intramuscular ou intranasal \u00e9 a escolha, e a escalada seguinte obedece aos tempos do <a href=\"https:\/\/institutocdt.com.br\/blog\/manejo-do-estado-de-mal-epileptico-doses-tempo-e-a-escalada-que-protege-o-cerebro\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">manejo do estado de mal epil\u00e9ptico<\/a>.<\/p>\n<h3>Quando a convuls\u00e3o febril vira estado de mal?<\/h3>\n<p>O estado de mal \u00e9 raro na crise febril, mas acontece, sobretudo em crian\u00e7a com predisposi\u00e7\u00e3o neurol\u00f3gica. Ap\u00f3s duas doses de benzodiazep\u00ednico, a crian\u00e7a pode precisar de suporte ventilat\u00f3rio, e a equipe deve estar pronta para via a\u00e9rea antes da escalada.<\/p>\n<h2>O que orientar aos pais depois da convuls\u00e3o febril?<\/h2>\n<p>A orienta\u00e7\u00e3o \u00e9 parte do tratamento, porque a crise \u00e9 assustadora para quem assiste e a fam\u00edlia volta com medo de sequela. A mensagem central \u00e9 a de evolu\u00e7\u00e3o benigna, sem les\u00e3o cerebral na crise simples e com desaparecimento conforme a crian\u00e7a amadurece.<\/p>\n<h3>Qual o risco de nova convuls\u00e3o febril?<\/h3>\n<p>A recorr\u00eancia depende da idade do primeiro epis\u00f3dio e chega a cerca de 50% quando ele ocorre no primeiro ano e a 30% aos 2 anos. As taxas e os crit\u00e9rios de acompanhamento est\u00e3o no <a href=\"https:\/\/www.rch.org.au\/clinicalguide\/guideline_index\/Febrile_seizure\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">guia cl\u00ednico do Royal Children&#8217;s Hospital de Melbourne<\/a>.<\/p>\n<h3>Antit\u00e9rmico previne a pr\u00f3xima crise?<\/h3>\n<p>N\u00e3o, e esse \u00e9 um dos mitos mais dif\u00edceis de desfazer na consulta. O antit\u00e9rmico melhora o conforto, mas n\u00e3o impede a recorr\u00eancia, e o <a href=\"https:\/\/institutocdt.com.br\/blog\/manejo-da-crianca-com-febre-na-emergencia\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">manejo da crian\u00e7a com febre<\/a> deve priorizar hidrata\u00e7\u00e3o e sinais de gravidade.<\/p>\n<p>Algumas situa\u00e7\u00f5es pedem seguimento com neuropediatra, mesmo depois de alta segura. A lista resume os sinais que justificam o encaminhamento ambulatorial.<\/p>\n<ul>\n<li>Crise prolongada ou crises complexas repetidas em epis\u00f3dios febris diferentes;<\/li>\n<li>Hist\u00f3ria familiar de epilepsia em parentes de primeiro grau da crian\u00e7a;<\/li>\n<li>Atraso do desenvolvimento neuropsicomotor ou exame neurol\u00f3gico alterado ap\u00f3s a crise;<\/li>\n<li>Crises sem febre em qualquer momento, que sugerem outro diagn\u00f3stico al\u00e9m da crise febril.<\/li>\n<\/ul>\n<h2>Perguntas frequentes sobre convuls\u00e3o febril<\/h2>\n<p>Estas s\u00e3o as perguntas que mais aparecem no atendimento e na conversa com a fam\u00edlia. As respostas trazem a conduta aceita e os pontos de aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h3>Convuls\u00e3o febril causa epilepsia?<\/h3>\n<p>A crise simples n\u00e3o causa epilepsia, e o risco posterior fica pouco acima do da popula\u00e7\u00e3o geral. Crise complexa, atraso do desenvolvimento e hist\u00f3ria familiar elevam esse risco, o que justifica seguimento.<\/p>\n<h3>Crian\u00e7a com convuls\u00e3o febril precisa ficar internada?<\/h3>\n<p>Na crise simples, com crian\u00e7a acordada, exame normal e foco benigno identificado, a alta com orienta\u00e7\u00e3o \u00e9 o padr\u00e3o. Interna\u00e7\u00e3o cabe \u00e0 crise complexa, \u00e0 d\u00favida sobre meningite ou \u00e0 fam\u00edlia sem condi\u00e7\u00e3o de retorno.<\/p>\n<h3>Precisa de anticonvulsivante cont\u00ednuo depois da primeira crise?<\/h3>\n<p>N\u00e3o, a profilaxia cont\u00ednua n\u00e3o \u00e9 indicada na crise simples, porque os efeitos adversos superam o benef\u00edcio. Em crises recorrentes ou prolongadas, alguns servi\u00e7os discutem esquema intermitente com o neuropediatra.<\/p>\n<h3>Vacina pode desencadear convuls\u00e3o febril?<\/h3>\n<p>A febre ap\u00f3s algumas vacinas pode desencadear a crise em crian\u00e7a predisposta, com o mesmo curso benigno. Isso n\u00e3o contraindica as doses seguintes, e a vacina\u00e7\u00e3o completa at\u00e9 reduz a necessidade de pun\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h3>O que os pais devem fazer em casa durante a crise?<\/h3>\n<p>Deitar a crian\u00e7a de lado, afastar objetos, n\u00e3o colocar nada na boca e marcar o tempo de crise. Se passar de 5 minutos, ou se houver dificuldade para respirar, a orienta\u00e7\u00e3o \u00e9 acionar o servi\u00e7o de emerg\u00eancia.<\/p>\n<h2>Convuls\u00e3o febril e a volta ao pronto-socorro<\/h2>\n<p>A m\u00e3e que retorna no dia seguinte dizendo que o filho est\u00e1 estranho \u00e9 a cena que todo pediatra de plant\u00e3o teme depois de uma convuls\u00e3o febril. O caso de meningoencefalite que parecia crise simples s\u00f3 \u00e9 reconhecido cedo quando a orienta\u00e7\u00e3o de retorno foi clara e o exame da v\u00e9spera ficou registrado.<\/p>\n<p>Decidir com seguran\u00e7a quem puncionar, quem observar e quem liberar exige treino repetido com casos reais. A <a href=\"https:\/\/institutocdt.com.br\/pos_emergenciaspediatricas\/?el=blog\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Emerg\u00eancias Pedi\u00e1tricas e Neonatais do CDT<\/a> prepara o m\u00e9dico para crises, febre e sala de emerg\u00eancia infantil com professores que vivem esse plant\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Convuls\u00e3o febril na emerg\u00eancia: simples ou complexa, quando puncionar, exames que n\u00e3o ajudam, benzodiazep\u00ednico ap\u00f3s 5 minutos e o que orientar aos pais.<\/p>\n","protected":false},"author":29,"featured_media":206397,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[1262,1263,1246,399],"class_list":["post-206400","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-graduacao-medica","tag-convulsao-febril","tag-crise-febril-na-infancia","tag-emergencia-pediatrica","tag-estado-de-mal-epileptico"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutocdt.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/206400","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutocdt.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutocdt.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutocdt.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/29"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutocdt.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=206400"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/institutocdt.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/206400\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":206619,"href":"https:\/\/institutocdt.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/206400\/revisions\/206619"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutocdt.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/206397"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutocdt.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=206400"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutocdt.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=206400"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutocdt.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=206400"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}