{"id":206420,"date":"2026-10-15T19:00:00","date_gmt":"2026-10-15T22:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/institutocdt.com.br\/blog\/?p=206420"},"modified":"2026-10-11T16:15:43","modified_gmt":"2026-10-11T19:15:43","slug":"acidente-ofidico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutocdt.com.br\/blog\/acidente-ofidico\/","title":{"rendered":"Acidente of\u00eddico: botr\u00f3pico ou crot\u00e1lico? Como diferenciar e dosar o antiveneno"},"content":{"rendered":"<p>O acidente of\u00eddico chega ao pronto-socorro quase sempre com a mesma pergunta da fam\u00edlia: que cobra foi essa? A resposta raramente vem com a serpente na m\u00e3o, e o m\u00e9dico precisa deduzir o g\u00eanero pelo quadro cl\u00ednico para escolher o soro certo e a quantidade de frascos.<\/p>\n<p>Em outubro de 2025 o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade publicou o PCDT de acidentes of\u00eddicos, que mudou as doses do envenenamento botr\u00f3pico para 3, 6 e 12 frascos. Quem ainda trabalha com a tabela antiga de 2 a 4 e 4 a 8 ampolas est\u00e1 prescrevendo por uma faixa que deixou de existir.<\/p>\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/institutocdt.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/out-acidente-ofidico-1-r.webp\" alt=\"acidente of\u00eddico\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><em>A extens\u00e3o do edema, contada por segmentos do membro, define a gravidade do envenenamento botr\u00f3pico e o n\u00famero de frascos de soro.<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<h2>Como diferenciar o tipo de acidente of\u00eddico pela cl\u00ednica?<\/h2>\n<p>O ponto de partida \u00e9 separar veneno com a\u00e7\u00e3o local intensa de veneno com pouca les\u00e3o local e sinais neurol\u00f3gicos. Essa divis\u00e3o j\u00e1 orienta a escolha entre soro antibotr\u00f3pico, anticrot\u00e1lico, antilaqu\u00e9tico ou antielap\u00eddico antes de qualquer exame.<\/p>\n<h3>Quando pensar em acidente of\u00eddico botr\u00f3pico?<\/h3>\n<p>Jararaca, jararacu\u00e7u e urutu respondem pela maior parte dos casos no Brasil, em \u00e1rea urbana e rural. O quadro t\u00edpico traz dor, edema progressivo, equimose e bolhas no local, com gengivorragia, hemat\u00faria ou sangue incoagul\u00e1vel como marcas sist\u00eamicas.<\/p>\n<h3>O que sugere cascavel ou coral-verdadeira?<\/h3>\n<p>A cascavel causa pouca dor e quase nenhum edema, mas produz f\u00e1cies miast\u00eanica, ptose, diplopia, mialgia e urina escura por mioglobin\u00faria. A coral-verdadeira tamb\u00e9m \u00e9 neurot\u00f3xica, com ptose, disfagia e fraqueza que pode evoluir para paralisia respirat\u00f3ria em poucas horas.<\/p>\n<p>A tabela resume o que cada g\u00eanero costuma mostrar e o soro indicado. Ela serve de mapa r\u00e1pido na admiss\u00e3o, sem substituir a reavalia\u00e7\u00e3o seriada.<\/p>\n<table>\n<thead>\n<tr>\n<th>Tipo<\/th>\n<th>Serpente<\/th>\n<th>Sinais que ajudam<\/th>\n<th>Soro<\/th>\n<\/tr>\n<\/thead>\n<tbody>\n<tr>\n<td>Botr\u00f3pico<\/td>\n<td>Jararaca, urutu, jararacu\u00e7u<\/td>\n<td>Dor, edema, equimose, sangramento<\/td>\n<td>SABR, SABL ou SABC<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Laqu\u00e9tico<\/td>\n<td>Surucucu<\/td>\n<td>Quadro local botr\u00f3pico mais diarreia, bradicardia e hipotens\u00e3o<\/td>\n<td>SABL<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Crot\u00e1lico<\/td>\n<td>Cascavel<\/td>\n<td>Ptose, mialgia, urina escura, pouco edema<\/td>\n<td>SAC ou SABC<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Elap\u00eddico<\/td>\n<td>Coral-verdadeira<\/td>\n<td>Ptose, disfagia, fraqueza, dispneia<\/td>\n<td>SAELA<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<h2>Quantos frascos de soro o acidente of\u00eddico exige?<\/h2>\n<p>A dose \u00e9 a mesma para adultos e crian\u00e7as, porque neutraliza a quantidade de veneno inoculada, e n\u00e3o o peso do paciente. A gravidade define o n\u00famero de frascos, e o esquema completo est\u00e1 no <a href=\"https:\/\/www.gov.br\/conitec\/pt-br\/midias\/protocolos\/pcdt-acidentes-ofidicos\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">PCDT de acidentes of\u00eddicos da Conitec<\/a>.<\/p>\n<h3>Como classificar a gravidade no acidente of\u00eddico botr\u00f3pico?<\/h3>\n<p>O membro \u00e9 dividido em tr\u00eas segmentos: m\u00e3o e punho, antebra\u00e7o e cotovelo, bra\u00e7o, ou p\u00e9 e tornozelo, perna e joelho, coxa. Edema de at\u00e9 um segmento \u00e9 leve (3 frascos), de dois segmentos \u00e9 moderado (6), e tr\u00eas segmentos, choque, hemorragia grave ou inj\u00faria renal definem o caso grave (12).<\/p>\n<h3>Quais as doses nos demais g\u00eaneros?<\/h3>\n<p>No crot\u00e1lico, o caso leve recebe 5 frascos, o moderado 10 e o grave, com mialgia intensa, urina escura e olig\u00faria, 20 frascos. O laqu\u00e9tico nunca \u00e9 leve e recebe 10 ou 20 frascos, e o elap\u00eddico moderado recebe 5 e o grave 10.<\/p>\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/institutocdt.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/out-acidente-ofidico-2.webp\" alt=\"acidente of\u00eddico\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><em>O antiveneno \u00e9 dilu\u00eddo e infundido por via venosa de uma s\u00f3 vez, com o m\u00e9dico \u00e0 beira do leito para interromper diante de rea\u00e7\u00e3o precoce.<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<h2>Como administrar o antiveneno no acidente of\u00eddico?<\/h2>\n<p>A via \u00e9 sempre intravenosa, com dilui\u00e7\u00e3o em soro fisiol\u00f3gico ou glicosado a 5% e infus\u00e3o entre 8 e 12 mL por minuto. A quantidade prescrita n\u00e3o deve ser fracionada, e a infus\u00e3o ocorre sob vigil\u00e2ncia direta do profissional respons\u00e1vel.<\/p>\n<p>A sequ\u00eancia abaixo organiza a primeira hora do atendimento. Ela prioriza o que muda desfecho e evita as manobras que ainda aparecem no pr\u00e9-hospitalar.<\/p>\n<ol type=\"1\">\n<li>Retirar an\u00e9is e pulseiras, lavar o local com \u00e1gua e sab\u00e3o e manter o membro elevado e estendido;<\/li>\n<li>Colher tempo de coagula\u00e7\u00e3o, hemograma com plaquetas, ureia, creatinina e CK antes do soro;<\/li>\n<li>Classificar o tipo e a gravidade, escolher o soro e diluir no volume adequado;<\/li>\n<li>Deixar adrenalina aspirada ao lado do leito e infundir o soro sem fracionar;<\/li>\n<li>Notificar o caso no Sinan em at\u00e9 24 horas, mesmo sem soroterapia.<\/li>\n<\/ol>\n<h3>O que fazer se houver rea\u00e7\u00e3o durante a infus\u00e3o?<\/h3>\n<p>Diante de urtic\u00e1ria, broncoespasmo ou hipotens\u00e3o, a infus\u00e3o \u00e9 interrompida e a rea\u00e7\u00e3o tratada, com a <a href=\"https:\/\/institutocdt.com.br\/blog\/adrenalina-na-anafilaxia-dose-via-e-os-erros-que-custam-vidas\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">adrenalina na anafilaxia<\/a> como primeira droga nos casos graves. Depois da remiss\u00e3o, o soro deve ser retomado o quanto antes, porque o veneno continua agindo.<\/p>\n<h3>Quais medidas est\u00e3o contraindicadas?<\/h3>\n<p>Torniquete, garrote, incis\u00e3o e suc\u00e7\u00e3o do local s\u00e3o proibidos, assim como bloqueio anest\u00e9sico ou inje\u00e7\u00e3o no membro picado. A via intramuscular deve ser evitada pelo risco de hematoma, e os anti-inflamat\u00f3rios n\u00e3o esteroidais n\u00e3o s\u00e3o recomendados para a dor.<\/p>\n<h2>Como acompanhar o acidente of\u00eddico ap\u00f3s o soro?<\/h2>\n<p>Casos sem sintomas, sobretudo botr\u00f3picos, ficam no m\u00ednimo 6 horas em observa\u00e7\u00e3o, e quem recebeu soro fica pelo menos 24 horas. Crot\u00e1licos e elap\u00eddicos podem ter manifesta\u00e7\u00f5es tardias e exigem monitoramento de 24 a 72 horas.<\/p>\n<h3>Quando repetir a dose de antiveneno?<\/h3>\n<p>O tempo de coagula\u00e7\u00e3o \u00e9 refeito para confirmar a resposta ao tratamento, e sangue que continua incoagul\u00e1vel ou piora cl\u00ednica pedem reclassifica\u00e7\u00e3o da gravidade. Nesses casos o paciente pode precisar de frascos adicionais, decis\u00e3o que vale ser discutida com o CIATox da regi\u00e3o.<\/p>\n<h3>Quais complica\u00e7\u00f5es merecem vigil\u00e2ncia ativa?<\/h3>\n<p>Algumas complica\u00e7\u00f5es aparecem depois das primeiras horas e mudam o progn\u00f3stico do membro e do rim. A lista re\u00fane as que mais exigem aten\u00e7\u00e3o na enfermaria.<\/p>\n<ul>\n<li>Inj\u00faria renal aguda, frequente no crot\u00e1lico, acompanhada pelos <a href=\"https:\/\/institutocdt.com.br\/blog\/insuficiencia-renal-aguda-criterios-kdigo\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">crit\u00e9rios KDIGO<\/a> de creatinina e diurese;<\/li>\n<li>Infec\u00e7\u00e3o secund\u00e1ria, abscesso, celulite e <a href=\"https:\/\/institutocdt.com.br\/blog\/tratamento-da-erisipela-antibiotico-porta-de-entrada-e-os-diferenciais-que-enganam\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">erisipela<\/a>, tratados com antibi\u00f3tico s\u00f3 quando h\u00e1 sinal cl\u00ednico;<\/li>\n<li>S\u00edndrome compartimental, rara, em que a fasciotomia s\u00f3 entra com crit\u00e9rio objetivo e ap\u00f3s corrigir a coagulopatia;<\/li>\n<li>Insufici\u00eancia respirat\u00f3ria no elap\u00eddico, que pode exigir <a href=\"https:\/\/institutocdt.com.br\/blog\/intubacao-sequencia-rapida-protocolo\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">sequ\u00eancia r\u00e1pida de intuba\u00e7\u00e3o<\/a> e anticolinester\u00e1sico.<\/li>\n<\/ul>\n<h2>Perguntas frequentes sobre acidente of\u00eddico<\/h2>\n<p>As quest\u00f5es a seguir aparecem com frequ\u00eancia entre plantonistas de regi\u00f5es com muitos casos. As respostas seguem o protocolo vigente.<\/p>\n<h3>Todo acidente of\u00eddico precisa de soro?<\/h3>\n<p>N\u00e3o, porque parte das picadas \u00e9 seca, sem inocula\u00e7\u00e3o suficiente de veneno. Nesses casos o paciente fica em observa\u00e7\u00e3o com exames seriados, e o soro s\u00f3 entra se surgirem sinais locais ou sist\u00eamicos.<\/p>\n<h3>Crian\u00e7a com acidente of\u00eddico recebe dose menor?<\/h3>\n<p>N\u00e3o, a dose de antiveneno \u00e9 a mesma de adultos, j\u00e1 que o volume de veneno independe do tamanho da v\u00edtima. Crian\u00e7as costumam evoluir de forma mais grave, e os dados globais desse risco est\u00e3o na <a href=\"https:\/\/www.who.int\/news-room\/fact-sheets\/detail\/snakebite-envenoming\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">ficha da OMS sobre envenenamento of\u00eddico<\/a>.<\/p>\n<h3>Precisa trazer a cobra para identificar?<\/h3>\n<p>N\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio, e tentar capturar o animal atrasa o socorro e cria risco de nova picada. Uma foto ajuda, mas o diagn\u00f3stico \u00e9 cl\u00ednico e laboratorial.<\/p>\n<h3>O acidente of\u00eddico exige vacina antitet\u00e2nica?<\/h3>\n<p>A profilaxia antitet\u00e2nica segue o esquema habitual para ferimentos, de acordo com a situa\u00e7\u00e3o vacinal. Antibi\u00f3tico profil\u00e1tico n\u00e3o \u00e9 indicado, s\u00f3 o tratamento quando h\u00e1 infec\u00e7\u00e3o estabelecida.<\/p>\n<h3>Qual soro usar quando o tipo \u00e9 incerto?<\/h3>\n<p>Em regi\u00f5es onde coexistem jararaca e cascavel, o soro antibotr\u00f3pico e anticrot\u00e1lico cobre os dois g\u00eaneros. Na suspeita de surucucu, o antibotr\u00f3pico e antilaqu\u00e9tico \u00e9 o indicado, e o CIATox da regi\u00e3o ajuda a decidir nos casos duvidosos.<\/p>\n<h2>Acidente of\u00eddico no plant\u00e3o do interior<\/h2>\n<p>O cen\u00e1rio mais comum \u00e9 o lavrador que chega tr\u00eas horas depois da picada, com a perna inchada at\u00e9 o joelho e um pano amarrado na coxa. O m\u00e9dico precisa desfazer o garrote, contar os segmentos, decidir entre 6 e 12 frascos e ainda preparar a equipe para uma poss\u00edvel rea\u00e7\u00e3o ao soro.<\/p>\n<p>Esse tipo de decis\u00e3o, tomada sem especialista por perto, \u00e9 o que mais pesa quando o acidente of\u00eddico aparece poucas vezes por ano no servi\u00e7o. A <a href=\"https:\/\/institutocdt.com.br\/pos_medicinadeemergencia\/?el=blog\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Medicina de Emerg\u00eancia<\/a> treina envenenamentos, anafilaxia e via a\u00e9rea com casos reais, para que o protocolo saia autom\u00e1tico no plant\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Acidente of\u00eddico no pronto-socorro: como diferenciar botr\u00f3pico, crot\u00e1lico, laqu\u00e9tico e elap\u00eddico e quantos frascos de antiveneno usar pelo PCDT de 2025.<\/p>\n","protected":false},"author":29,"featured_media":206802,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[1282,1283,1280,1281],"class_list":["post-206420","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-graduacao-medica","tag-acidente-botropico","tag-acidente-crotalico","tag-acidente-ofidico","tag-soro-antiveneno"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutocdt.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/206420","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutocdt.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutocdt.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutocdt.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/29"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutocdt.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=206420"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/institutocdt.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/206420\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":206804,"href":"https:\/\/institutocdt.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/206420\/revisions\/206804"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutocdt.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/206802"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutocdt.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=206420"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutocdt.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=206420"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutocdt.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=206420"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}