{"id":206541,"date":"2026-10-08T15:00:00","date_gmt":"2026-10-08T18:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/institutocdt.com.br\/blog\/?p=206541"},"modified":"2026-10-08T15:00:00","modified_gmt":"2026-10-08T18:00:00","slug":"nutricao-enteral-no-paciente-critico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutocdt.com.br\/blog\/nutricao-enteral-no-paciente-critico\/","title":{"rendered":"Nutri\u00e7\u00e3o enteral no paciente cr\u00edtico: quando iniciar, quanto ofertar e como manter a dieta"},"content":{"rendered":"<p>A nutri\u00e7\u00e3o enteral no paciente cr\u00edtico deixou de ser um item burocr\u00e1tico da prescri\u00e7\u00e3o e passou a ser uma decis\u00e3o com prazo, dose e crit\u00e9rios de pausa. Intubado com sepse, p\u00f3s-operat\u00f3rio abdominal e politraumatizado compartilham o mesmo desafio: catabolismo intenso nos primeiros dias e perda de massa muscular que pesa no desmame.<\/p>\n<p>Uma pergunta aparece em toda visita multiprofissional: por que n\u00e3o oferecer logo 100% da meta, se o paciente est\u00e1 perdendo m\u00fasculo? A resposta est\u00e1 na fisiologia da fase aguda, em que o pr\u00f3prio corpo produz energia por gliconeog\u00eanese e lip\u00f3lise, e somar a meta cheia nesse momento favorece a hiperalimenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/institutocdt.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/out-nutricao-enteral-no-paciente-critico-1.webp\" alt=\"nutri\u00e7\u00e3o enteral no paciente cr\u00edtico\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><em>A dieta come\u00e7a em vaz\u00e3o baixa e progride conforme a toler\u00e2ncia, e o volume infundido de fato costuma ficar abaixo do prescrito por causa das pausas para exames e procedimentos.<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<h2>Quando iniciar a nutri\u00e7\u00e3o enteral no paciente cr\u00edtico?<\/h2>\n<p>A via oral vem primeiro sempre que poss\u00edvel. Quando ela n\u00e3o \u00e9 vi\u00e1vel, a <a href=\"https:\/\/pubmed.ncbi.nlm.nih.gov\/37517372\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">diretriz pr\u00e1tica da ESPEN para UTI<\/a> recomenda iniciar a dieta enteral nas primeiras 48 horas, em vez de adi\u00e1-la ou come\u00e7ar pela via parenteral.<\/p>\n<h3>O paciente em uso de noradrenalina pode receber dieta?<\/h3>\n<p>Pode, desde que o choque esteja controlado com volume e <a href=\"https:\/\/institutocdt.com.br\/blog\/drogas-vasoativas-no-choque-septico-qual-escolher-e-como-titular\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">drogas vasoativas<\/a> em doses est\u00e1veis ou em queda. Nessa situa\u00e7\u00e3o a dieta come\u00e7a em vaz\u00e3o baixa, com vigil\u00e2ncia de distens\u00e3o, lactato em ascens\u00e3o e dor abdominal que possam sugerir isquemia intestinal.<\/p>\n<h3>Em quais situa\u00e7\u00f5es a dieta deve esperar?<\/h3>\n<p>A lista resume os cen\u00e1rios em que a nutri\u00e7\u00e3o enteral no paciente cr\u00edtico deve ser adiada. Todos foram extra\u00eddos das recomenda\u00e7\u00f5es europeias e servem como <em>checklist<\/em> antes de liberar a vaz\u00e3o.<\/p>\n<ul>\n<li>Choque n\u00e3o controlado, com metas de perfus\u00e3o ainda n\u00e3o atingidas;<\/li>\n<li>Hipoxemia, hipercapnia ou acidose n\u00e3o controladas e com risco de vida;<\/li>\n<li>Hemorragia digestiva alta ativa, at\u00e9 a parada do sangramento sem sinais de ressangramento;<\/li>\n<li>Isquemia intestinal manifesta ou s\u00edndrome compartimental abdominal;<\/li>\n<li>F\u00edstula intestinal de alto d\u00e9bito sem acesso distal confi\u00e1vel para alimentar;<\/li>\n<li>Aspirado g\u00e1strico acima de 500 mL em 6 horas.<\/li>\n<\/ul>\n<h2>Quanto ofertar na nutri\u00e7\u00e3o enteral no paciente cr\u00edtico?<\/h2>\n<p>A meta muda conforme a fase da doen\u00e7a, e o erro mais comum \u00e9 tratar a primeira semana como se fosse a segunda. A tabela organiza a progress\u00e3o usada na maioria das UTIs sem calorimetria indireta.<\/p>\n<table>\n<thead>\n<tr>\n<th>Fase<\/th>\n<th>Energia<\/th>\n<th>Prote\u00edna<\/th>\n<\/tr>\n<\/thead>\n<tbody>\n<tr>\n<td>Dias 1 a 3 (fase aguda precoce)<\/td>\n<td>At\u00e9 70% do gasto estimado, cerca de 15 a 20 kcal\/kg\/dia<\/td>\n<td>Progress\u00e3o gradual<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Ap\u00f3s o dia 3<\/td>\n<td>80 a 100% do gasto estimado, cerca de 25 kcal\/kg\/dia<\/td>\n<td>Alvo de 1,3 g\/kg\/dia<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Recupera\u00e7\u00e3o e reabilita\u00e7\u00e3o<\/td>\n<td>Meta plena, ajustada \u00e0 reabilita\u00e7\u00e3o<\/td>\n<td>Pode ser maior, conforme a perda muscular<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<h3>Por que a meta \u00e9 hipocal\u00f3rica nos primeiros dias?<\/h3>\n<p>Nos tr\u00eas primeiros dias, a produ\u00e7\u00e3o end\u00f3gena de glicose n\u00e3o \u00e9 suprimida pela dieta, ent\u00e3o a meta cheia soma energia ao que o organismo j\u00e1 fabrica. A ESPEN recomenda n\u00e3o ultrapassar 70% do gasto estimado nesse per\u00edodo, e a calorimetria indireta, quando dispon\u00edvel, substitui as f\u00f3rmulas imprecisas baseadas em peso.<\/p>\n<h3>O propofol conta como caloria?<\/h3>\n<p>Conta, e \u00e9 uma das armadilhas mais frequentes na nutri\u00e7\u00e3o enteral no paciente cr\u00edtico. A emuls\u00e3o lip\u00eddica do propofol fornece 1,1 kcal\/mL, e em infus\u00f5es altas pode representar parte relevante da meta di\u00e1ria, que deve ser descontada da dieta.<\/p>\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/institutocdt.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/out-nutricao-enteral-no-paciente-critico-2.webp\" alt=\"nutri\u00e7\u00e3o enteral no paciente cr\u00edtico\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><em>Distens\u00e3o abdominal, v\u00f4mitos e queda da peristalse pesam mais do que um n\u00famero isolado de res\u00edduo g\u00e1strico na decis\u00e3o de reduzir ou manter a dieta.<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<h2>Como manter a nutri\u00e7\u00e3o enteral no paciente cr\u00edtico sem intoler\u00e2ncia?<\/h2>\n<p>A diferen\u00e7a entre o volume prescrito e o infundido costuma ser grande, por jejum para exames, extuba\u00e7\u00e3o, banho e transporte. Protocolos de enfermagem com metas por volume em 24 horas ajudam a compensar essas pausas sem depender de nova prescri\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h3>Volume residual g\u00e1strico ainda deve ser medido?<\/h3>\n<p>A medida rotineira perdeu for\u00e7a, porque res\u00edduos isolados pouco predizem aspira\u00e7\u00e3o. O limite que justifica pausar a dieta \u00e9 aspirado acima de 500 mL em 6 horas, e abaixo disso vale mais o exame do abdome do que o n\u00famero isolado.<\/p>\n<h3>Quando usar procin\u00e9tico ou sonda p\u00f3s-pil\u00f3rica?<\/h3>\n<p>Na intoler\u00e2ncia g\u00e1strica, a eritromicina venosa de 100 a 250 mg tr\u00eas vezes ao dia \u00e9 o procin\u00e9tico de primeira linha, e perde efeito ap\u00f3s 72 horas. A metoclopramida \u00e9 alternativa, e a <a href=\"https:\/\/institutocdt.com.br\/blog\/sonda-nasoenteral-tecnica\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">sonda nasoenteral<\/a> p\u00f3s-pil\u00f3rica fica para intoler\u00e2ncia persistente ou alto risco de aspira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h2>Quais complica\u00e7\u00f5es exigem aten\u00e7\u00e3o na nutri\u00e7\u00e3o enteral no paciente cr\u00edtico?<\/h2>\n<p>As complica\u00e7\u00f5es mais s\u00e9rias surgem justamente quando a dieta avan\u00e7a. A sequ\u00eancia abaixo organiza a vigil\u00e2ncia di\u00e1ria de quem prescreve.<\/p>\n<ol type=\"1\">\n<li>Elevar a cabeceira entre 30 e 45 graus, medida que tamb\u00e9m reduz o risco de <a href=\"https:\/\/institutocdt.com.br\/blog\/pneumonia-associada-a-ventilacao-mecanica\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">pneumonia associada \u00e0 ventila\u00e7\u00e3o mec\u00e2nica<\/a>;<\/li>\n<li>Dosar pot\u00e1ssio, magn\u00e9sio e f\u00f3sforo pelo menos uma vez ao dia na primeira semana;<\/li>\n<li>Conferir o volume infundido real das \u00faltimas 24 horas antes de ajustar a meta;<\/li>\n<li>Descontar propofol e glicose venosa do total cal\u00f3rico ofertado;<\/li>\n<li>Reavaliar diarreia, distens\u00e3o e glicemia antes de qualquer suspens\u00e3o da dieta.<\/li>\n<\/ol>\n<h3>Como reconhecer a s\u00edndrome de realimenta\u00e7\u00e3o?<\/h3>\n<p>O sinal laboratorial mais precoce \u00e9 o f\u00f3sforo abaixo de 0,65 mmol\/L, ou queda acima de 0,16 mmol\/L, ap\u00f3s o in\u00edcio da dieta. Nesses casos os eletr\u00f3litos passam a ser dosados duas a tr\u00eas vezes ao dia, com reposi\u00e7\u00e3o e redu\u00e7\u00e3o tempor\u00e1ria da oferta cal\u00f3rica.<\/p>\n<h3>Diarreia obriga a suspender a dieta?<\/h3>\n<p>Na maioria das vezes n\u00e3o, e a suspens\u00e3o autom\u00e1tica s\u00f3 aprofunda o d\u00e9ficit cal\u00f3rico. A investiga\u00e7\u00e3o come\u00e7a por medicamentos com sorbitol, laxativos e antibi\u00f3ticos, pesquisa de <em>Clostridioides difficile<\/em> e revis\u00e3o da osmolaridade da f\u00f3rmula.<\/p>\n<h2>Perguntas frequentes sobre nutri\u00e7\u00e3o enteral no paciente cr\u00edtico<\/h2>\n<p>As d\u00favidas a seguir surgem com frequ\u00eancia entre plantonistas e residentes de terapia intensiva. Cada resposta traz o crit\u00e9rio pr\u00e1tico para decidir \u00e0 beira do leito.<\/p>\n<h3>A nutri\u00e7\u00e3o enteral no paciente cr\u00edtico deve ser cont\u00ednua ou intermitente?<\/h3>\n<p>A infus\u00e3o cont\u00ednua em bomba \u00e9 a mais usada na UTI, porque reduz diarreia em rela\u00e7\u00e3o ao bolus. Esquemas intermitentes ou c\u00edclicos ficam para pacientes est\u00e1veis, em transi\u00e7\u00e3o para casa ou para a via oral.<\/p>\n<h3>Quando associar nutri\u00e7\u00e3o parenteral?<\/h3>\n<p>A parenteral suplementar \u00e9 considerada quando a via enteral n\u00e3o atinge a meta ap\u00f3s alguns dias, sempre avaliando caso a caso. Em paciente desnutrido com enteral contraindicada, a parenteral pode come\u00e7ar mais cedo e de forma progressiva.<\/p>\n<h3>A nutri\u00e7\u00e3o enteral no paciente cr\u00edtico precisa ser suspensa antes da extuba\u00e7\u00e3o?<\/h3>\n<p>A pausa costuma ser feita por algumas horas antes do procedimento, conforme o protocolo local. O importante \u00e9 retomar a dieta ou liberar a via oral logo depois, com avalia\u00e7\u00e3o da degluti\u00e7\u00e3o quando houve intuba\u00e7\u00e3o prolongada.<\/p>\n<h3>Qual peso usar no c\u00e1lculo em obesos?<\/h3>\n<p>Em obesos, as f\u00f3rmulas usam peso ajustado ou peso ideal, porque o peso real superestima o gasto. As metas por grau de obesidade est\u00e3o detalhadas na <a href=\"https:\/\/www.braspenjournal.org\/article\/doi\/10.37111\/braspenj.diretrizDOENTEGRAVE\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">diretriz BRASPEN de terapia nutricional no paciente grave<\/a>.<\/p>\n<h3>Glicemia alta com a dieta pede suspens\u00e3o?<\/h3>\n<p>N\u00e3o, pede insulina, geralmente iniciada quando a glicemia passa de 180 mg\/dL. Quando a dieta \u00e9 pausada, a insulina precisa ser ajustada para evitar <a href=\"https:\/\/institutocdt.com.br\/blog\/manejo-da-hipoglicemia-a-regra-dos-15-glicose-ev-e-a-causa-por-tras\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">hipoglicemia<\/a>, e o paciente pode precisar de glicose venosa.<\/p>\n<h2>Nutri\u00e7\u00e3o enteral no paciente cr\u00edtico al\u00e9m da prescri\u00e7\u00e3o do dia<\/h2>\n<p>O retrato mais comum \u00e9 o balan\u00e7o do s\u00e9timo dia mostrando que o paciente recebeu pouco mais da metade do prescrito, sem que ningu\u00e9m tenha decidido isso. A nutri\u00e7\u00e3o enteral no paciente cr\u00edtico se perde nas pausas silenciosas, e o intensivista percebe tarde, quando o desmame j\u00e1 emperrou pela fraqueza.<\/p>\n<p>Evitar esse cen\u00e1rio depende de conhecer as metas por fase, os crit\u00e9rios de pausa e a leitura correta da intoler\u00e2ncia. A <a href=\"https:\/\/institutocdt.com.br\/pos_medicinaintensiva\/?el=blog\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Medicina Intensiva do Instituto CDT<\/a> dedica uma disciplina inteira \u00e0 terapia nutricional, com casos discutidos por intensivistas que conduzem essas decis\u00f5es todos os dias.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nutri\u00e7\u00e3o enteral no paciente cr\u00edtico: quando iniciar em 48 h, meta hipocal\u00f3rica nos primeiros dias, prote\u00edna, volume residual, procin\u00e9ticos e realimenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"author":29,"featured_media":206538,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[1383,1385,1384,1386],"class_list":["post-206541","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-graduacao-medica","tag-nutricao-enteral-no-paciente-critico","tag-sindrome-de-realimentacao","tag-terapia-nutricional-na-uti","tag-volume-residual-gastrico"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutocdt.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/206541","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutocdt.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutocdt.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutocdt.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/29"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutocdt.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=206541"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/institutocdt.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/206541\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":206775,"href":"https:\/\/institutocdt.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/206541\/revisions\/206775"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutocdt.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/206538"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutocdt.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=206541"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutocdt.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=206541"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutocdt.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=206541"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}