{"id":207344,"date":"2026-11-04T19:00:00","date_gmt":"2026-11-04T22:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/institutocdt.com.br\/blog\/?p=207344"},"modified":"2026-11-04T19:00:00","modified_gmt":"2026-11-04T22:00:00","slug":"vasopressina-no-choque-septico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutocdt.com.br\/blog\/vasopressina-no-choque-septico\/","title":{"rendered":"Vasopressina no choque s\u00e9ptico: o que o VASSPR mostrou sobre a hora de come\u00e7ar"},"content":{"rendered":"<p>A vasopressina no choque s\u00e9ptico ganhou em 14 de outubro de 2026 o maior ensaio j\u00e1 feito sobre o momento de inici\u00e1-la. O estudo VASSPR, publicado no <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1001\/jama.2026.21333\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">JAMA<\/a>, comparou come\u00e7ar a vasopressina com noradrenalina a 0,1 ou a 0,4 \u00b5g\/kg\/min em 3.959 pacientes de 13 hospitais.<\/p>\n<p>O resultado contraria quem esperava uma resposta definitiva. A mortalidade em 28 dias foi de 31,8% no limiar baixo e de 33,0% no limiar alto, sem diferen\u00e7a estat\u00edstica, e a pergunta sobre a hora certa continua aberta para o plantonista.<\/p>\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/institutocdt.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/vasopressina-no-choque-septico-fig1-1024x710.webp\" alt=\"vasopressina no choque s\u00e9ptico\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><em>A vasopressina \u00e9 dilu\u00edda e infundida em dose fixa, em geral 0,03 unidade por minuto, sem titula\u00e7\u00e3o pela press\u00e3o como se faz com a noradrenalina.<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<h2>O que o estudo VASSPR testou?<\/h2>\n<p>O VASSPR foi um ensaio pragm\u00e1tico com randomiza\u00e7\u00e3o por hospital e altern\u00e2ncia de estrat\u00e9gia ao longo do tempo. Esse desenho permite incluir milhares de pacientes reais, mas mede a pol\u00edtica do servi\u00e7o, e n\u00e3o a decis\u00e3o individual \u00e0 beira do leito.<\/p>\n<h3>Quais limiares foram comparados?<\/h3>\n<p>No grupo de limiar baixo, a vasopressina come\u00e7ava quando a noradrenalina, ou equivalente, chegava a 0,1 \u00b5g\/kg\/min. No grupo de limiar alto, o gatilho era 0,4 \u00b5g\/kg\/min, e nos dois a vasopressina entrava em dose fixa de 0,03 unidade por minuto.<\/p>\n<h3>A estrat\u00e9gia mudou a pr\u00e1tica?<\/h3>\n<p>Mudou, e isso d\u00e1 peso ao resultado negativo. A vasopressina foi usada em 68,0% dos pacientes do limiar baixo e em 42,7% do limiar alto, com in\u00edcio mediano em 1,4 hora contra 2,2 horas ap\u00f3s a inclus\u00e3o.<\/p>\n<h3>E os desfechos secund\u00e1rios?<\/h3>\n<p>Com a vasopressina no choque s\u00e9ptico iniciada cedo ou tarde, os dias livres de terapia renal substitutiva tiveram mediana de 29 nos dois grupos. O choque cardiog\u00eanico persistente ou novo ocorreu em 7,4% no limiar baixo e em 6,3% no limiar alto, diferen\u00e7a que pede aten\u00e7\u00e3o em pacientes com disfun\u00e7\u00e3o ventricular.<\/p>\n<h2>Quando iniciar a vasopressina no choque s\u00e9ptico depois do VASSPR?<\/h2>\n<p>Sem benef\u00edcio de mortalidade para nenhum dos extremos testados, a faixa intermedi\u00e1ria usada na pr\u00e1tica segue razo\u00e1vel. A diretriz da Surviving Sepsis Campaign sugere somar vasopressina em vez de escalar a noradrenalina, em geral entre 0,25 e 0,5 \u00b5g\/kg\/min.<\/p>\n<h3>O que os professores da p\u00f3s usam como gatilho?<\/h3>\n<p>Nas aulas de Medicina Intensiva, os professores descrevem a regra de bolso de 0,25 a 0,3 \u00b5g\/kg\/min de noradrenalina para associar vasopressina. O VASSPR n\u00e3o invalida essa escolha, porque n\u00e3o mostrou ganho em antecipar para 0,1 nem dano claro em esperar at\u00e9 0,4.<\/p>\n<h3>Como a evid\u00eancia anterior se encaixa?<\/h3>\n<p>O estudo VASST, mais antigo, tamb\u00e9m n\u00e3o mostrou benef\u00edcio global da vasopressina em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 noradrenalina. A tabela abaixo resume os dados que orientam a decis\u00e3o hoje.<\/p>\n<table>\n<colgroup>\n<col style=\"width: 33%\" \/>\n<col style=\"width: 33%\" \/>\n<col style=\"width: 33%\" \/>\n<\/colgroup>\n<thead>\n<tr>\n<th>Fonte<\/th>\n<th>O que comparou<\/th>\n<th>Principal achado<\/th>\n<\/tr>\n<\/thead>\n<tbody>\n<tr>\n<td>VASST<\/td>\n<td>Vasopressina ou noradrenalina como segundo agente<\/td>\n<td>Sem diferen\u00e7a global de mortalidade<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Surviving Sepsis 2021<\/td>\n<td>Recomenda\u00e7\u00e3o de diretriz<\/td>\n<td>Somar vasopressina em vez de escalar a noradrenalina<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>VASSPR 2026<\/td>\n<td>In\u00edcio com noradrenalina a 0,1 ou 0,4 \u00b5g\/kg\/min<\/td>\n<td>Mortalidade de 31,8% e 33,0%, sem diferen\u00e7a<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Aulas da p\u00f3s<\/td>\n<td>Pr\u00e1tica dos professores<\/td>\n<td>Associar entre 0,25 e 0,3 \u00b5g\/kg\/min<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/institutocdt.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/vasopressina-no-choque-septico-fig2-1024x683.webp\" alt=\"vasopressina no choque s\u00e9ptico\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><em>Dias livres de terapia renal substitutiva foram desfecho secund\u00e1rio do VASSPR e n\u00e3o diferiram entre iniciar a vasopressina cedo ou mais tarde.<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<h2>Como prescrever a vasopressina no choque s\u00e9ptico?<\/h2>\n<p>A vasopressina age em receptores pr\u00f3prios, diferentes dos adren\u00e9rgicos, e n\u00e3o deve ser titulada como a noradrenalina. A dose fixa \u00e9 o padr\u00e3o, e o ajuste fino da press\u00e3o continua sendo feito pela noradrenalina.<\/p>\n<h3>Qual a dose e como preparar?<\/h3>\n<p>A dose habitual da vasopressina no choque s\u00e9ptico \u00e9 de 0,03 unidade por minuto em infus\u00e3o cont\u00ednua, conforme a <a href=\"https:\/\/pmc.ncbi.nlm.nih.gov\/articles\/PMC8486643\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Surviving Sepsis Campaign de 2021<\/a>. A dose n\u00e3o sobe junto com a piora da press\u00e3o.<\/p>\n<p>O c\u00e1lculo da dilui\u00e7\u00e3o e da vaz\u00e3o segue o mesmo racioc\u00ednio descrito em <a href=\"https:\/\/institutocdt.com.br\/blog\/calculo-de-drogas-vasoativas-o-gotejamento-correto-a-beira-leito\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">c\u00e1lculo de drogas vasoativas<\/a>. Conferir a concentra\u00e7\u00e3o da solu\u00e7\u00e3o na troca de plant\u00e3o evita erros de dez vezes na infus\u00e3o.<\/p>\n<h3>Quais efeitos adversos vigiar?<\/h3>\n<p>A vasoconstri\u00e7\u00e3o intensa pode causar isquemia digital, mesent\u00e9rica e mioc\u00e1rdica, sobretudo com doses acima do habitual. A lista abaixo resume o que checar na visita depois de iniciar a droga.<\/p>\n<ul>\n<li>Perfus\u00e3o de dedos e extremidades, com aten\u00e7\u00e3o a cianose e livedo;<\/li>\n<li>Dor abdominal, distens\u00e3o ou lactato subindo sem outra explica\u00e7\u00e3o;<\/li>\n<li>Eletrocardiograma e troponina diante de altera\u00e7\u00e3o isqu\u00eamica nova;<\/li>\n<li>D\u00e9bito card\u00edaco em pacientes com disfun\u00e7\u00e3o ventricular conhecida.<\/li>\n<\/ul>\n<h3>Quando somar hidrocortisona?<\/h3>\n<p>A diretriz sugere corticoide endovenoso quando a noradrenalina ou a adrenalina fica em 0,25 \u00b5g\/kg\/min ou mais por pelo menos quatro horas. Na pr\u00e1tica, esse \u00e9 o mesmo momento em que muitos servi\u00e7os j\u00e1 associaram a vasopressina, e a <a href=\"https:\/\/institutocdt.com.br\/blog\/manejo-da-insuficiencia-adrenal-aguda-hidrocortisona-imediata-antes-do-choque\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">insufici\u00eancia adrenal aguda<\/a> precisa ser lembrada em quem usava corticoide cr\u00f4nico.<\/p>\n<h2>Como organizar o suporte vasopressor no choque s\u00e9ptico?<\/h2>\n<p>A vasopressina no choque s\u00e9ptico \u00e9 uma pe\u00e7a do suporte, e n\u00e3o o centro dele. A sequ\u00eancia abaixo ordena as decis\u00f5es da primeira hora at\u00e9 a fase de desmame.<\/p>\n<h3>Qual a sequ\u00eancia \u00e0 beira do leito?<\/h3>\n<p>A ordem segue o que a diretriz e os professores da p\u00f3s descrevem nas aulas de choque. Ela evita atrasar a noradrenalina e tamb\u00e9m evita escalar a dose indefinidamente.<\/p>\n<ol type=\"1\">\n<li>Iniciar noradrenalina cedo, inclusive em <a href=\"https:\/\/institutocdt.com.br\/blog\/noradrenalina-em-acesso-periferico\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">acesso perif\u00e9rico<\/a> enquanto o central n\u00e3o sai;<\/li>\n<li>Titular a noradrenalina para press\u00e3o arterial m\u00e9dia de 65 mmHg;<\/li>\n<li>Associar vasopressina em dose fixa na faixa de 0,25 a 0,5 \u00b5g\/kg\/min;<\/li>\n<li>Considerar hidrocortisona se a dose persistir alta por quatro horas;<\/li>\n<li>Reavaliar volemia, foco infeccioso e fun\u00e7\u00e3o card\u00edaca a cada passo.<\/li>\n<\/ol>\n<h3>Como escolher entre as drogas vasoativas?<\/h3>\n<p>A noradrenalina segue como primeira escolha, e a adrenalina e a dobutamina entram em situa\u00e7\u00f5es espec\u00edficas. As diferen\u00e7as pr\u00e1ticas est\u00e3o em <a href=\"https:\/\/institutocdt.com.br\/blog\/drogas-vasoativas-no-choque-septico-qual-escolher-e-como-titular\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">drogas vasoativas no choque s\u00e9ptico<\/a>.<\/p>\n<h2>Perguntas frequentes sobre vasopressina no choque s\u00e9ptico<\/h2>\n<p>As d\u00favidas abaixo surgiram nas discuss\u00f5es depois da publica\u00e7\u00e3o do VASSPR. As respostas resumem o que o estudo responde e o que ainda est\u00e1 em aberto.<\/p>\n<h3>Iniciar cedo a vasopressina no choque s\u00e9ptico reduz mortalidade?<\/h3>\n<p>O VASSPR n\u00e3o mostrou redu\u00e7\u00e3o de mortalidade com o limiar de 0,1 \u00b5g\/kg\/min. Tamb\u00e9m n\u00e3o mostrou dano evidente, o que mant\u00e9m a decis\u00e3o nas m\u00e3os da equipe.<\/p>\n<h3>A vasopressina no choque s\u00e9ptico deve ser titulada?<\/h3>\n<p>N\u00e3o, ela \u00e9 usada em dose fixa, em geral 0,03 unidade por minuto. A titula\u00e7\u00e3o da press\u00e3o continua sendo feita pela noradrenalina.<\/p>\n<h3>O VASSPR vale para choque cardiog\u00eanico?<\/h3>\n<p>N\u00e3o, o estudo incluiu apenas pacientes com choque s\u00e9ptico. No choque cardiog\u00eanico, a escolha do vasopressor segue outra l\u00f3gica e outros estudos.<\/p>\n<h3>A vasopressina poupa noradrenalina?<\/h3>\n<p>Ela costuma reduzir a dose necess\u00e1ria de noradrenalina, efeito que motiva seu uso. Isso, por\u00e9m, n\u00e3o se traduziu em menor mortalidade nos ensaios.<\/p>\n<h3>Qual droga retirar primeiro no desmame?<\/h3>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 regra \u00fanica, e muitos servi\u00e7os reduzem primeiro a noradrenalina. A decis\u00e3o deve considerar a resposta press\u00f3rica e o protocolo local.<\/p>\n<h2>Vasopressina no choque s\u00e9ptico: a dose que ningu\u00e9m anotou<\/h2>\n<p>A noradrenalina chega a 0,45 \u00b5g\/kg\/min \u00e0s 4 h, o plantonista hesita entre subir mais ou chamar a vasopressina, e ningu\u00e9m lembrou da hidrocortisona. O VASSPR mostra que antecipar n\u00e3o salva vidas por si, mas n\u00e3o autoriza esquecer a vasopressina no choque s\u00e9ptico quando a noradrenalina j\u00e1 passou da faixa usual.<\/p>\n<p>Saber ler um ensaio como o VASSPR e transformar o resultado em prescri\u00e7\u00e3o \u00e9 o que d\u00e1 seguran\u00e7a na madrugada da UTI. A <a href=\"https:\/\/institutocdt.com.br\/pos_medicinaintensiva\/?el=blog\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Medicina Intensiva<\/a> aprofunda choque, drogas vasoativas e sepse com casos discutidos pelos professores.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vasopressina no choque s\u00e9ptico: o ensaio VASSPR, do JAMA de outubro de 2026, comparou iniciar com noradrenalina a 0,1 ou 0,4 \u00b5g\/kg\/min. Veja o impacto.<\/p>\n","protected":false},"author":29,"featured_media":207341,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[653,736,38,1674],"class_list":["post-207344","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-graduacao-medica","tag-choque-septico","tag-drogas-vasoativas","tag-terapia-intensiva","tag-vasopressina-no-choque-septico"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutocdt.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/207344","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutocdt.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutocdt.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutocdt.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/29"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutocdt.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=207344"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/institutocdt.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/207344\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":207420,"href":"https:\/\/institutocdt.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/207344\/revisions\/207420"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutocdt.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/207341"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutocdt.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=207344"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutocdt.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=207344"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutocdt.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=207344"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}