A dor que queima, choca e formiga não responde ao analgésico de sempre — e isso frustra médico e paciente. Dominar a farmacologia da dor neuropática é o que transforma consultas repetidas em alívio real.
Este guia organiza as linhas de tratamento, as faixas de dose de cada fármaco e os erros que mantêm o paciente em sofrimento por meses. A meta é escolher a classe certa para o perfil de cada um e titular até a dose eficaz, sem parar no meio do caminho.

Por que a farmacologia da dor neuropática é diferente?
A dor neuropática nasce de lesão ou disfunção do sistema somatossensorial, com mecanismos distintos da dor nociceptiva. Por isso, a farmacologia da dor neuropática privilegia moduladores do sistema nervoso, não anti-inflamatórios.
O anti-inflamatório isolado costuma falhar porque não há inflamação a combater, e insistir nele por meses é o erro mais comum da prática. Esse raciocínio vale também para a dor lombar irradiada, em que o componente neuropático costuma ser subtratado.
AINE resolve dor neuropática?
Em regra, não. Na dor neuropática pura os anti-inflamatórios têm efeito marginal, porque o mecanismo não é inflamatório. Eles só fazem sentido quando há componente nociceptivo associado, e ainda assim por tempo limitado, dado o risco gastrointestinal e renal do uso crônico.
O que orienta a escolha inicial?
O perfil do paciente decide: insônia associada favorece gabapentinoide ou amitriptilina à noite, quadro depressivo aponta para duloxetina, e função renal reduzida obriga a ajustar a dose dos gabapentinoides. Essa individualização é competência central da medicina e dor.
Quais são as linhas da farmacologia da dor neuropática?
As opções se organizam por força de evidência e por tolerabilidade, e quase sempre a limitação prática é o efeito adverso, não a eficácia. A tabela resume a farmacologia da dor neuropática:
| Linha | Fármacos | Faixa usual |
|---|---|---|
| Primeira | pregabalina, gabapentina | 150–600 / 900–3600 mg/dia |
| Primeira | duloxetina, amitriptilina | 60 / 25–75 mg/dia |
| Segunda | tramadol, lidocaína tópica | conforme resposta |
| Terceira | opioide forte, toxina botulínica | casos refratários |
Quando usar gabapentinoides?
Pregabalina e gabapentina são primeira linha e funcionam bem quando há dor em queimação, alodínia e insônia associada. A titulação precisa ser progressiva para contornar tontura e sedação iniciais, e ambas exigem ajuste pela função renal, cuidado frequentemente esquecido no idoso.
E os antidepressivos?
Os duais, como duloxetina e venlafaxina, e os tricíclicos, como amitriptilina e nortriptilina, também ocupam a primeira linha, com a vantagem de tratar depressão concomitante. Nos tricíclicos, o efeito anticolinérgico e o risco de arritmia impõem cautela em idosos e cardiopatas, sendo a nortriptilina a alternativa mais bem tolerada.
Como titular na farmacologia da dor neuropática?
A titulação lenta é o que separa o tratamento que funciona do que é abandonado na segunda semana por efeito adverso. Um roteiro prático organiza o processo:
- Escolher a primeira linha conforme comorbidades;
- Iniciar em dose baixa e aumentar de forma gradual;
- Aguardar tempo adequado antes de julgar a falha;
- Combinar mecanismos quando a resposta é parcial;
- Reservar opioides fortes para casos refratários selecionados.
Combinar fármacos é válido?
Sim, e costuma ser mais eficaz do que escalar a dose de um único fármaco até a intolerância. Associar mecanismos distintos, como gabapentinoide e antidepressivo dual, permite doses menores de cada um e reduz efeitos adversos, estratégia respaldada em ensaios de dor neuropática periférica.
Neuralgia do trigêmeo é exceção?
Sim, e é a exceção mais importante. Na neuralgia do trigêmeo, carbamazepina e oxcarbazepina são primeira linha, com resposta frequentemente dramática, o que inclusive ajuda a confirmar o diagnóstico. Recomendações podem ser consultadas nos portais da IASP e do NICE.

Erros comuns na farmacologia da dor neuropática
As armadilhas a seguir explicam a maior parte dos pacientes que circulam anos sem alívio:
- Tratar com anti-inflamatório isolado;
- Iniciar opioide como primeira linha;
- Manter dose subterapêutica por medo de efeitos;
- Abandonar a droga antes do tempo adequado;
- Usar tricíclico em dose alta no idoso frágil.
Quando encaminhar para intervenção?
Quando duas classes de primeira linha foram tituladas até a dose máxima tolerada, por tempo adequado, sem resposta satisfatória. Nesse ponto entram bloqueios, radiofrequência e neuromodulação, além da abordagem multidisciplinar com fisioterapia e saúde mental.
Perguntas frequentes sobre farmacologia da dor neuropática
As dúvidas mais comuns sobre a farmacologia da dor neuropática aparecem a seguir, respondidas de forma objetiva.
Quanto tempo para avaliar resposta?
De quatro a oito semanas após atingir a dose-alvo, e não a partir do início do tratamento. Julgar a falha durante a titulação é o que produz trocas sucessivas e a impressão, falsa, de que nada funciona para aquele paciente.
Pregabalina ou gabapentina?
Ambas são primeira linha e têm eficácia comparável. A pregabalina tem farmacocinética linear e titulação mais simples, em duas tomadas; a gabapentina custa menos e está mais disponível, ao custo de três tomadas diárias e titulação mais longa.
Amitriptilina serve para todos?
Não. O perfil anticolinérgico causa boca seca, retenção urinária, constipação e confusão, e o efeito sobre a condução cardíaca desaconselha o uso em cardiopatas. No idoso, quando indicada, prefere-se nortriptilina em dose baixa.
Opioide nunca entra?
Entra em casos refratários e selecionados, como terceira linha, com meta definida, reavaliação frequente e plano de retirada desde o início. A dependência iatrogênica é risco concreto, semelhante ao discutido no desmame de benzodiazepínicos.
Tópicos ajudam?
Sim, sobretudo quando a dor é bem localizada, como na neuralgia pós-herpética. Lidocaína em adesivo e capsaicina em alta concentração oferecem alívio com mínima exposição sistêmica, o que os torna atraentes no idoso polimedicado, como discute o texto sobre manejo da dor neuropática.
A dose que parou no meio do caminho
Pregabalina 75 mg à noite. É provavelmente a prescrição mais comum — e mais insuficiente — da dor neuropática no Brasil. O paciente sente tontura nos primeiros dias, o médico não sobe a dose, e três meses depois a conclusão é que “não funcionou”. Na farmacologia da dor neuropática, o fármaco raramente falha; quem falha é a titulação interrompida.
Conduzir essa escalada com segurança exige conhecer o tempo de resposta de cada classe, os efeitos que passam e os que exigem troca. A Pós-Graduação em Medicina e Dor do Instituto CDT aprofunda essa condução, do primeiro comprimido à indicação de intervenção.