A crise de gota é uma das dores agudas mais intensas do consultório, e o tratamento erra por dois motivos: dose antiga (alta) de colchicina e a velha ideia de “começar alopurinol na crise”. O tratamento da crise de gota moderno é mais simples e seguro do que se pensa.
Este guia organiza a escolha do fármaco conforme as comorbidades, as doses atualizadas e a conduta depois que a dor passa. O foco é aliviar rápido e, principalmente, impedir que a próxima crise chegue em poucos meses.

Como iniciar o tratamento da crise de gota?
O tratamento da crise de gota deve começar o quanto antes: quanto mais precoce, melhor a resposta. A escolha entre colchicina, AINE e corticoide depende das comorbidades.
Os três têm eficácia comparável nos estudos, de modo que a segurança — e não a potência — define a escolha. Função renal, doença ulcerosa prévia, diabetes e uso de anticoagulante são as variáveis que realmente decidem a prescrição.
Qual a dose correta de colchicina?
A dose atual é baixa: 1 mg seguido de 0,5 mg uma hora depois, mantendo-se 0,5 mg uma a duas vezes ao dia até a resolução. O esquema antigo, com doses repetidas até a diarreia, tinha a mesma eficácia e muito mais toxicidade — abandoná-lo é a mudança mais relevante do tratamento nas últimas décadas.
AINE ou corticoide?
O AINE em dose plena é adequado a pacientes sem doença renal, úlcera péptica ou insuficiência cardíaca descompensada. O corticoide, oral ou intra-articular, é a escolha preferencial diante dessas restrições, com atenção ao descontrole glicêmico no diabético.
Como escolher o fármaco no tratamento da crise de gota?
A decisão se resolve cruzando o quadro articular com as comorbidades do paciente. A tabela resume as opções no tratamento da crise de gota:
| Fármaco | Melhor cenário | Cuidado |
|---|---|---|
| Colchicina | início precoce | ajustar na doença renal |
| AINE | sem restrição renal/GI | evitar em nefropatas |
| Corticoide | contraindicação a AINE | atenção ao diabetes |
| Intra-articular | monoartrite | excluir infecção antes |
Quando preferir o corticoide intra-articular?
Na monoartrite de articulação acessível, depois de excluída a artrite séptica pela punção, a infiltração oferece alívio rápido sem exposição sistêmica. É especialmente útil no paciente renal crônico ou diabético, em quem AINE e corticoide oral trazem mais risco.
Posso combinar fármacos?
Sim, em crises graves ou poliarticulares as combinações são aceitas, como colchicina associada a corticoide. A associação que se evita é AINE com corticoide sistêmico, pelo risco gastrointestinal somado.
O que fazer após o tratamento da crise de gota?
Tratar a crise resolve a semana; o que evita a próxima é o que se faz depois que a dor cede. Um roteiro prático organiza as duas fases:
- Tratar a crise precocemente com o fármaco mais seguro;
- Não iniciar alopurinol durante a crise aguda;
- Manter o alopurinol se o paciente já o usava;
- Após a crise, iniciar terapia de redução do ácido úrico;
- Associar profilaxia com colchicina no início do alopurinol.
Por que não iniciar alopurinol na crise?
Porque a queda abrupta do urato mobiliza cristais e pode prolongar ou intensificar a crise em curso. O alopurinol entra depois da resolução, em dose crescente e com profilaxia associada, perseguindo a meta de urato abaixo de 6 mg/dL.
Continuo o alopurinol se já usava?
Sim, sem interrupção. Suspender o alopurinol durante a crise é um erro clássico e produz nova variação do urato, agravando exatamente o que se pretendia aliviar. A dose em uso deve ser mantida integralmente.

Erros comuns no tratamento da crise de gota
As armadilhas a seguir respondem pela maior parte das crises que se arrastam por semanas:
- Usar colchicina em dose alta, como antigamente;
- Iniciar alopurinol durante a crise aguda;
- Suspender o alopurinol de quem já usava;
- Prescrever AINE ao nefropata;
- Não excluir artrite séptica na monoartrite.
Gota ou artrite séptica?
Diante de monoartrite aguda com febre, a punção articular é obrigatória antes de assumir gota, mesmo em paciente com diagnóstico prévio. Hiperuricemia não exclui infecção, e as duas condições podem coexistir na mesma articulação.
Perguntas frequentes sobre tratamento da crise de gota
As dúvidas mais comuns sobre o tratamento da crise de gota aparecem a seguir, respondidas de forma objetiva.
Qual a dose atual de colchicina?
1 mg seguido de 0,5 mg após uma hora, com manutenção de dose baixa até a resolução do quadro. As recomendações completas podem ser consultadas no portal do American College of Rheumatology.
Corticoide serve para gota?
Sim, com eficácia equivalente à dos AINEs e melhor perfil no paciente renal crônico. Prednisona por cinco dias costuma bastar, e materiais sobre doenças reumáticas estão no portal da Sociedade Brasileira de Reumatologia.
Quando começar o alopurinol?
Depois da resolução completa da crise, começando em dose baixa e titulando até a meta de urato abaixo de 6 mg/dL. A profilaxia com colchicina em dose baixa deve acompanhar os primeiros meses de tratamento.
AINE é sempre seguro?
Não. Deve ser evitado em nefropatas, em portadores de insuficiência cardíaca e em pacientes com alto risco gastrointestinal ou em uso de anticoagulante. Nesses perfis, colchicina em dose ajustada ou corticoide são alternativas mais seguras.
A dieta resolve sozinha?
A dieta ajuda, sobretudo reduzindo álcool, frutose e carnes vermelhas, mas seu efeito sobre o urato sérico é modesto. Em crises recorrentes ou tofos, não substitui a terapia farmacológica de redução do urato.
A conduta que envelheceu no tratamento da crise de gota
Poucos temas acumularam tanta prática desatualizada quanto este: a colchicina em dose alta até a diarreia e a suspensão do alopurinol durante a crise continuam circulando em prescrições, décadas depois de terem sido abandonadas pela evidência. Atualizar o tratamento da crise de gota é, antes de tudo, desfazer hábitos herdados.
O mesmo vale para boa parte do manejo da dor aguda, área em que a rotina costuma se sobrepor à literatura. A Pós-Graduação em Medicina e Dor do Instituto CDT revisa essas condutas com o rigor de quem precisa decidir com o paciente na frente, não com o artigo aberto.