Convulsão febril: o que muda quando a crise passa de 15 minutos ou volta em 24 horas

convulsão febril

A convulsão febril é a crise convulsiva mais comum da infância e aparece, na maior parte das vezes, entre 6 e 60 meses, com pico perto dos 2 anos. Ela ocorre com temperatura igual ou acima de 38 °C, sem infecção do sistema nervoso central, distúrbio metabólico ou crise afebril prévia.

Na prática, a criança costuma chegar ao pronto-socorro já fora da crise, sentada no colo, e a pergunta real do plantonista é quanto investigar. Colher líquor, tomografia e eletroencefalograma de toda criança que convulsionou com febre gera iatrogenia, enquanto dispensar o exame neurológico cuidadoso deixa passar a meningite.

convulsão febril
A febre que sobe rápido durante uma infecção viral comum é o gatilho mais frequente da crise, e investigar o foco infeccioso importa mais do que investigar o cérebro.

Como diferenciar convulsão febril simples e complexa?

A classificação muda a investigação e a orientação, e é feita com dados da história que os pais ou o socorrista trazem. A tabela compara os dois grupos pelos critérios usados nas principais diretrizes pediátricas.

Critério Simples Complexa
Tipo de crise Generalizada, em geral tônico-clônica Focal em qualquer momento
Duração Menos de 15 minutos 15 minutos ou mais
Recorrência Não se repete na mesma doença Repete em 24 horas ou no mesmo episódio febril
Recuperação Completa em até 1 hora Alteração de consciência ou déficit prolongados

O que acontece fora da faixa de 6 meses a 5 anos?

Abaixo de 6 meses, crise com febre é tratada como infecção do sistema nervoso central, malformação ou infecção congênita até prova em contrário, com líquor e imagem. Acima de 5 anos, a crise com febre também pede investigação, porque o limiar maturacional que explica a convulsão febril já não se aplica.

Uma única característica complexa muda a conduta?

Sim, basta uma delas para classificar a crise como complexa. Crise focal, duração prolongada ou pós-ictal arrastado indicam observação mais longa, exame neurológico repetido e avaliação caso a caso de líquor, imagem e eletroencefalograma.

Quais exames pedir na convulsão febril simples?

Na criança com crise simples e exame neurológico normal, a investigação deve buscar a causa da febre, e não a da crise. Otite, infecção de via aérea superior, pneumonia e infecção urinária são os focos habituais, e a febre sem sinais localizatórios no lactente segue estratificação própria por idade.

Quando a punção lombar é obrigatória?

A punção lombar é indicada sempre que houver rigidez de nuca, Kernig, Brudzinski ou outro sinal meníngeo. Ela é opcional entre 6 e 12 meses sem vacinação completa contra Haemophilus tipo b ou pneumococo e na criança já em uso de antibiótico, que pode mascarar a meningite.

Eletroencefalograma, tomografia e laboratório ajudam?

Na crise simples, eletroencefalograma não prevê recorrência nem epilepsia, e hemograma e eletrólitos de rotina não esclarecem a crise. As recomendações sobre punção, eletroencefalograma e imagem estão resumidas no resumo da diretriz da Academia Americana de Pediatria.

convulsão febril
Rigidez de nuca, sinal de Kernig ou de Brudzinski após a crise tornam a punção lombar obrigatória, independentemente de a crise ter sido simples.

Como tratar a convulsão febril que não para?

A maioria das crises cede sozinha em menos de 5 minutos e chega ao hospital já resolvida. Quando a criança ainda convulsiona, o tratamento é o de qualquer crise prolongada, com a mesma sequência de passos.

  1. Posicionar em decúbito lateral, aspirar secreções e ofertar oxigênio, sem colocar nada na boca;
  2. Medir glicemia capilar na primeira abordagem, porque hipoglicemia também causa crise;
  3. Aplicar benzodiazepínico se a crise passar de 5 minutos, como diazepam 0,2 a 0,3 mg/kg venoso;
  4. Sem acesso, usar midazolam 0,2 mg/kg intramuscular ou diazepam retal 0,5 mg/kg;
  5. Repetir uma dose se necessário e escalar para anticonvulsivante de segunda linha se persistir.

Por que não fazer diazepam intramuscular?

A absorção do diazepam por via intramuscular é lenta e imprevisível, e a crise continua enquanto o fármaco não chega ao cérebro. Sem veia, o midazolam intramuscular ou intranasal é a escolha, e a escalada seguinte obedece aos tempos do manejo do estado de mal epiléptico.

Quando a convulsão febril vira estado de mal?

O estado de mal é raro na crise febril, mas acontece, sobretudo em criança com predisposição neurológica. Após duas doses de benzodiazepínico, a criança pode precisar de suporte ventilatório, e a equipe deve estar pronta para via aérea antes da escalada.

O que orientar aos pais depois da convulsão febril?

A orientação é parte do tratamento, porque a crise é assustadora para quem assiste e a família volta com medo de sequela. A mensagem central é a de evolução benigna, sem lesão cerebral na crise simples e com desaparecimento conforme a criança amadurece.

Qual o risco de nova convulsão febril?

A recorrência depende da idade do primeiro episódio e chega a cerca de 50% quando ele ocorre no primeiro ano e a 30% aos 2 anos. As taxas e os critérios de acompanhamento estão no guia clínico do Royal Children’s Hospital de Melbourne.

Antitérmico previne a próxima crise?

Não, e esse é um dos mitos mais difíceis de desfazer na consulta. O antitérmico melhora o conforto, mas não impede a recorrência, e o manejo da criança com febre deve priorizar hidratação e sinais de gravidade.

Algumas situações pedem seguimento com neuropediatra, mesmo depois de alta segura. A lista resume os sinais que justificam o encaminhamento ambulatorial.

  • Crise prolongada ou crises complexas repetidas em episódios febris diferentes;
  • História familiar de epilepsia em parentes de primeiro grau da criança;
  • Atraso do desenvolvimento neuropsicomotor ou exame neurológico alterado após a crise;
  • Crises sem febre em qualquer momento, que sugerem outro diagnóstico além da crise febril.

Perguntas frequentes sobre convulsão febril

Estas são as perguntas que mais aparecem no atendimento e na conversa com a família. As respostas trazem a conduta aceita e os pontos de atenção.

Convulsão febril causa epilepsia?

A crise simples não causa epilepsia, e o risco posterior fica pouco acima do da população geral. Crise complexa, atraso do desenvolvimento e história familiar elevam esse risco, o que justifica seguimento.

Criança com convulsão febril precisa ficar internada?

Na crise simples, com criança acordada, exame normal e foco benigno identificado, a alta com orientação é o padrão. Internação cabe à crise complexa, à dúvida sobre meningite ou à família sem condição de retorno.

Precisa de anticonvulsivante contínuo depois da primeira crise?

Não, a profilaxia contínua não é indicada na crise simples, porque os efeitos adversos superam o benefício. Em crises recorrentes ou prolongadas, alguns serviços discutem esquema intermitente com o neuropediatra.

Vacina pode desencadear convulsão febril?

A febre após algumas vacinas pode desencadear a crise em criança predisposta, com o mesmo curso benigno. Isso não contraindica as doses seguintes, e a vacinação completa até reduz a necessidade de punção.

O que os pais devem fazer em casa durante a crise?

Deitar a criança de lado, afastar objetos, não colocar nada na boca e marcar o tempo de crise. Se passar de 5 minutos, ou se houver dificuldade para respirar, a orientação é acionar o serviço de emergência.

Convulsão febril e a volta ao pronto-socorro

A mãe que retorna no dia seguinte dizendo que o filho está estranho é a cena que todo pediatra de plantão teme depois de uma convulsão febril. O caso de meningoencefalite que parecia crise simples só é reconhecido cedo quando a orientação de retorno foi clara e o exame da véspera ficou registrado.

Decidir com segurança quem puncionar, quem observar e quem liberar exige treino repetido com casos reais. A Pós-Graduação em Emergências Pediátricas e Neonatais do CDT prepara o médico para crises, febre e sala de emergência infantil com professores que vivem esse plantão.

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