Checklist de intubação: 5 letras, 3 seringas e o plano B dito em voz alta

checklist de intubação

O checklist de intubação nasceu da constatação de que a intubação do paciente grave falha menos pela técnica do que pela preparação. Tubo com cuff furado, aspirador desmontado e vasopressor que ninguém diluiu são problemas que aparecem justamente no minuto em que o paciente já está em apneia.

Um ensaio randomizado com 262 adultos críticos testou uma lista lida em voz alta e não encontrou diferença na menor saturação nem na menor sistólica. O dado não condena a ferramenta: mostra que o valor está no item executado e no plano combinado.

checklist de intubação
Testar o ambu contra a própria mão antes de começar revela válvula mal montada ou vazamento, falha que só apareceria na hora de ventilar o paciente dessaturado.

O que um checklist de intubação precisa conferir?

A primeira camada é o material, testado e à mão, e não apenas presente na sala. Na pós-graduação em Medicina Intensiva do CDT, essa checagem é ensinada com um mnemônico simples, o ATLAS.

Como usar o mnemônico ATLAS na checagem do material?

Cada letra corresponde a um item que precisa ser testado, e não só visto. A lista resume a checagem e o erro que cada item previne.

  • Ambu conectado ao oxigênio e testado contra a mão, com válvula e reservatório montados;
  • Tubo com cuff insuflado e desinsuflado, fio-guia lubrificado e moldado em taco de hóquei;
  • Laringoscópio com lâmina encaixada, luz forte e uma segunda lâmina de reserva;
  • Aspirador montado, ligado e fazendo barulho ao lado da cabeceira antes da indução;
  • Seringas separadas para o cuff, para o soro de flush e para o vasopressor diluído e rotulado.

Por que o aspirador ligado vem antes da indução?

Paciente de emergência, UTI ou atendimento pré-hospitalar raramente está em jejum, e a regurgitação pode acontecer na indução. Montar o aspirador depois disso consome minutos de broncoaspiração, e no pré-hospitalar uma seringa de 50 mL acoplada a sonda nasogástrica calibrosa serve como alternativa improvisada.

Como organizar a equipe no checklist de intubação?

A segunda camada é humana, e costuma ser a mais negligenciada. O médico precisa liderar com voz calma e clara, porque o nervosismo de quem conduz se transmite à equipe inteira.

Quem faz o quê na sala?

As funções devem ser combinadas antes da indução, e não no meio da crise. Um arranjo comum coloca o médico na via aérea, o fisioterapeuta ao lado para ajudar com o tubo e a ventilação, a enfermagem nas medicações e um técnico disponível para buscar o que faltar.

O que é comunicação em alça fechada?

O pedido tem destinatário nominal e é repetido por quem recebe antes de ser executado: “José, uma ampola de rocurônio”, seguido de “uma ampola de rocurônio, doutor”. Pedido gritado para a sala toda gera medicação errada, busca duplicada ou ninguém se mexendo.

checklist de intubação
A pré-oxigenação com máscara bem acoplada e fluxo de 15 L/min enche de oxigênio as reservas do paciente e prolonga o tempo seguro de apneia durante a laringoscopia.

Quais itens de fisiologia entram no checklist de intubação?

A terceira camada prepara o paciente para tolerar a apneia e a indução. A tabela reúne os itens fisiológicos que mais se associam a dessaturação e colapso hemodinâmico peri-intubação.

Item Como conferir O que previne
Pré-oxigenação Máscara acoplada a 15 L/min por 3 minutos ou 8 respirações profundas Dessaturação precoce durante a laringoscopia
Oxigenação apneica Cateter nasal a 15 L/min mantido durante a tentativa Queda rápida da saturação no obeso e no hipoxêmico
Posição Coxim occipital ou rampa até alinhar orelha e esterno Visualização ruim da glote
Pressão arterial Acesso venoso pérvio, volume e vasopressor prontos Hipotensão e parada logo após a indução
Capnografia Sensor conectado antes de passar o tubo Intubação esofágica não reconhecida

Quanto tempo de pré-oxigenação é suficiente?

Um critério prático é observar a saturação até atingir um platô, em geral perto de 98%. Modelos clássicos de apneia estimam que um adulto saudável leva cerca de 8 minutos para cair abaixo de 90%, enquanto o adulto grave e o obeso chegam lá em poucos minutos, daí o valor da oxigenação apneica.

Por que a pressão arterial entra no checklist?

Sedação e ventilação com pressão positiva derrubam o retorno venoso, e o paciente chocado pode parar logo após a indução. A escolha do hipnótico pesa menos do que ter o vasopressor preparado, como discute a análise de cetamina e etomidato na hipotensão pós-intubação.

Checklist de intubação funciona mesmo na prática?

O ensaio de Janz e colaboradores, publicado em 2018, encontrou menor saturação mediana de 92% com a lista e de 93% sem ela. O resumo completo está no registro do ensaio no PubMed, e a leitura correta é que a lista só protege quando cada item é executado.

Como falar o plano B antes da indução?

Verbalizar a estratégia de resgate antes de induzir evita a fixação na laringoscopia que não progride. A estrutura em etapas é a mesma das diretrizes da Difficult Airway Society para o paciente crítico.

  1. Plano A: laringoscopia com número máximo de tentativas combinado antes da indução;
  2. Plano B: dispositivo supraglótico para oxigenar enquanto se decide o próximo passo;
  3. Plano C: ventilação com máscara facial a quatro mãos e cânula orofaríngea;
  4. Plano D: cricotireoidostomia quando não se consegue intubar nem oxigenar.

Quais manobras salvam a laringoscopia difícil?

A manipulação laríngea externa, guiada pela mão de quem intuba sobre a mão de um auxiliar, frequentemente converte um Cormack 3 em 2. Elevar a cabeça, trocar a lâmina e usar o bougie vêm antes de repetir a mesma tentativa sem mudança.

Perguntas frequentes sobre checklist de intubação

As perguntas a seguir surgem sempre que um serviço decide implantar a checagem. As respostas vão direto à aplicação no plantão.

O checklist de intubação precisa ser impresso?

Um cartão plastificado ajuda a não esquecer itens em momentos de estresse. O essencial, porém, é que seja lido em voz alta por outra pessoa, no formato pergunta e resposta.

Quem deve ler o checklist de intubação?

Idealmente alguém que não esteja na via aérea, como a enfermeira ou um segundo médico. Assim quem vai intubar mantém a atenção no paciente e responde a cada item.

O checklist atrasa a intubação?

Na maioria dos casos ele cabe no tempo da pré-oxigenação, que precisa ser feita de qualquer forma. Na parada cardiorrespiratória ou na via aérea em colapso, a checagem se reduz ao mínimo indispensável.

Vale adaptar a lista para o SAMU?

Sim, e a adaptação pesa ainda mais fora do hospital, sobretudo na intubação pré-hospitalar do paciente chocado. A falta de aspirador fixo, a luz ruim e a equipe menor tornam a checagem de material ainda mais crítica.

O checklist de intubação inclui o pós-intubação?

Deve incluir a confirmação pela capnografia, a fixação do tubo e a medida da pressão do cuff. Sedação contínua e parâmetros iniciais do ventilador também precisam estar definidos antes que a equipe se disperse.

Checklist de intubação e o aspirador que ninguém ligou

A cena se repete em muitos prontos-socorros: paciente induzido, regurgitação na laringoscopia e alguém correndo atrás da extensão do aspirador. Um checklist de intubação lido em voz alta teria transformado esse caos em trinta segundos de conferência feita antes da primeira droga.

A insegurança diante da via aérea do paciente grave diminui quando a sequência está automatizada, do material ao plano de resgate. O Manual Prático de Intubação Orotraqueal reúne preparo, drogas, técnica e manobras de resgate em formato de consulta rápida para o plantão.

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