A parada cardiorrespiratória ACLS é o tema central do Advanced Cardiovascular Life Support da American Heart Association (AHA) — o protocolo mais utilizado em UTIs, SAMUs e emergências hospitalares no mundo. Dominar essa sequência não é apenas exigência curricular: é o que define se o paciente sobrevive ou não nos primeiros minutos de atendimento.
Este artigo reúne o protocolo atualizado de forma objetiva, cobrindo ritmos chocáveis e não chocáveis, drogas, RCP de alta qualidade e cuidados pós-retorno de circulação espontânea.
O que é o ACLS e por que ele importa?
O ACLS é um conjunto de algoritmos padronizados pela AHA para o atendimento de paradas cardiorrespiratórias em adultos. Ele não substitui o BLS (suporte básico de vida) — ele parte dele. Sem RCP de qualidade, nenhum protocolo avançado funciona.
A parada cardiorrespiratória ACLS começa com o reconhecimento imediato: paciente irresponsivo, sem respiração normal (ou apenas gasping) e sem pulso palpável em até 10 segundos. A partir desse momento, o relógio corre contra o paciente.
Quais são os ritmos de parada cardiorrespiratória ACLS?
O primeiro passo após reconhecer a PCR é monitorar e identificar o ritmo. Toda a conduta diverge a partir daí. Os quatro ritmos são divididos em dois grupos:
Ritmos chocáveis:
- Fibrilação ventricular (FV): ritmo caótico, sem complexos organizados, sem débito cardíaco;
- Taquicardia ventricular sem pulso (TVSP): complexos largos e rápidos, sem perfusão.
Ritmos não chocáveis:
- Assistolia: linha isoelétrica, ausência de atividade elétrica;
- Atividade elétrica sem pulso (AESP): qualquer ritmo organizado no monitor, mas sem pulso palpável.
A desfibrilação precoce é o único tratamento definitivo para FV e TVSP. Para assistolia e AESP, o tratamento é RCP de alta qualidade associada à investigação e reversão das causas.
Como é a sequência do protocolo de parada cardiorrespiratória ACLS?
Etapa 1: RCP de alta qualidade imediata
Assim que a PCR é reconhecida, a RCP começa sem demora. Os padrões de alta qualidade definidos pela AHA são:
- Frequência de compressões: 100 a 120 por minuto;
- Profundidade: 5 a 6 cm no adulto;
- Retorno completo do tórax entre cada compressão — não apoiar o peso no tórax;
- Interrupções mínimas: menos de 10 segundos a cada pausa;
- Relação compressão/ventilação: 30:2 sem via aérea avançada; ventilação a cada 6 segundos (10 por minuto) com via aérea avançada;
- Rodízio do reanimador a cada 2 minutos para evitar fadiga.
Etapa 2: Desfibrilação precoce nos ritmos chocáveis
Em FV e TVSP, cada minuto sem desfibrilação reduz a sobrevida em 7 a 10%. A sequência é:
- Identificar o ritmo chocável no monitor;
- Carregar o desfibrilador sem interromper a RCP;
- Afastar todos e aplicar o choque — 200J bifásico (ou conforme o equipamento);
- Retomar a RCP imediatamente após o choque, sem checar ritmo antes de completar 2 minutos.
A checagem do ritmo e do pulso ocorre apenas após os 2 minutos de RCP. Se o ritmo permanecer chocável, repita o ciclo.
Etapa 3: Acesso venoso e drogas na parada cardiorrespiratória ACLS
O acesso deve ser estabelecido sem interromper a RCP. Prioridade para acesso venoso periférico calibroso ou intraósseo — o acesso central não é prioridade no contexto de PCR.
Adrenalina:
- Dose: 1mg EV a cada 3 a 5 minutos;
- Em ritmos não chocáveis (assistolia e AESP): administrar assim que o acesso estiver disponível;
- Em ritmos chocáveis: após o segundo choque sem retorno.
Amiodarona:
- Indicada em FV/TVSP refratária (sem resposta após 2 a 3 choques);
- Primeira dose: 300mg EV em bolus;
- Segunda dose (se necessário): 150mg EV.
Lidocaína é uma alternativa à amiodarona quando esta não estiver disponível: primeira dose 1 a 1,5mg/kg, segunda dose 0,5 a 0,75mg/kg.
Etapa 4: Via aérea avançada
A intubação orotraqueal é a via aérea definitiva no contexto de parada cardiorrespiratória ACLS, mas não deve atrasar a RCP nem a desfibrilação. A máscara laríngea é uma alternativa aceitável quando a IOT não é viável rapidamente.
Com via aérea avançada, as compressões passam a ser contínuas e a ventilação ocorre de forma assíncrona — uma insuflação a cada 6 segundos.
O capnógrafo deve ser usado para confirmar posicionamento do tubo e monitorar a qualidade da RCP: ETCO₂ acima de 10mmHg indica RCP efetiva; valores acima de 35-40mmHg durante a RCP são um forte preditor de retorno da circulação espontânea.

Quais são as causas reversíveis da parada cardiorrespiratória ACLS?
Durante toda a ressuscitação, a equipe deve investigar e tratar simultaneamente as causas reversíveis. O mnemônico dos 5Hs e 5Ts organiza essa busca:
5 Hs:
- Hipovolemia;
- Hipóxia;
- Hidrogênio (acidose);
- Hipo/hipercalemia;
- Hipotermia.
5 Ts:
- Tensão no tórax (pneumotórax hipertensivo);
- Tamponamento cardíaco;
- Trombose coronariana (IAM);
- Tromboembolismo pulmonar;
- Tóxicos (intoxicações).
Identificar e tratar a causa é o que determina o prognóstico em assistolia e AESP — ritmos onde não há tratamento elétrico possível.
Qual é o protocolo pós-PCR após retorno de circulação espontânea?
O retorno da circulação espontânea (RCE) não encerra o protocolo de parada cardiorrespiratória ACLS. A síndrome pós-PCR é uma fase crítica com alta mortalidade. Os cuidados devem ser iniciados imediatamente:
1. Via aérea e ventilação:
- Garantir via aérea avançada se ainda não há;
- Meta de saturação: 92 a 98%. Evitar hiperóxia;
- Meta de PaCO₂: 35 a 45mmHg. Evitar hiperventilação;
- Guiar ajustes pelo capnógrafo e gasometria arterial.
2. Controle hemodinâmico:
- Meta de PAM acima de 65mmHg e PAS acima de 90mmHg;
- Iniciar amina vasoativa (noradrenalina é a primeira escolha) se necessário;
- Corrigir hipovolemia com volume cuidadoso.
3. ECG de 12 derivações:
- Realizar imediatamente após o RCE;
- Se houver supradesnivelamento de ST, BRE novo ou choque cardiogênico: encaminhar para angioplastia de urgência sem demora.
4. Controle neurológico:
- Pacientes comatosos após o RCE devem receber controle dirigido de temperatura;
- A normotermia (36°C) é a meta atual — evitar febre ativamente;
- Hipotermia terapêutica (32-36°C) pode ser considerada em centros especializados conforme protocolo institucional.
Quando considerar a interrupção da ressuscitação?
A decisão de encerrar a ressuscitação é clínica e contextual. Alguns parâmetros orientam essa decisão:
- ETCO₂ abaixo de 10mmHg após 20 minutos de RCP adequada é preditor de mau prognóstico em intubados;
- Ausência de ritmo chocável, sem causa reversível identificada e sem resposta após ressuscitação adequada;
- PCR não presenciada, tempo prolongado sem RCP e ausência de sinais de vida.
A decisão deve considerar o contexto clínico completo, os desejos previamente expressos pelo paciente e as diretrizes institucionais.
Tabela resumo: parada cardiorrespiratória ACLS por ritmo
| Ritmo | Chocável | Droga principal | Prioridade |
|---|---|---|---|
| Fibrilação ventricular | Sim | Adrenalina + amiodarona | Desfibrilação imediata |
| TVSP | Sim | Adrenalina + amiodarona | Desfibrilação imediata |
| Assistolia | Não | Adrenalina | Tratar causa + RCP |
| AESP | Não | Adrenalina | Tratar causa + RCP |
Perguntas frequentes sobre parada cardiorrespiratória ACLS
A seguir, as dúvidas mais pesquisadas por médicos e enfermeiros sobre parada cardiorrespiratória ACLS — da sequência de drogas aos critérios de interrupção.
A adrenalina deve ser usada nos ritmos chocáveis?
Sim, mas o momento importa. Em FV e TVSP, a adrenalina é administrada após o segundo choque sem sucesso — ou seja, não é a primeira intervenção farmacológica nesses ritmos. A desfibrilação é sempre a prioridade.
Qual a diferença entre assistolia e AESP?
Assistolia é ausência total de atividade elétrica — linha isoelétrica no monitor. AESP é presença de ritmo elétrico organizado sem pulso palpável correspondente.
A conduta é a mesma nos dois casos (RCP + adrenalina + investigação de causas), mas o diagnóstico diferencial importa para a busca das causas reversíveis.
Por que não checar pulso logo após o choque?
Porque a RCP imediata após o choque é mais eficaz do que interromper para checar. O miocárdio precisa de perfusão nos primeiros segundos após a desfibrilação para consolidar o ritmo. A checagem ocorre apenas após 2 minutos de RCP.
O acesso intraósseo é válido no ACLS?
Sim. O acesso intraósseo é totalmente aceito pelo ACLS como alternativa ao acesso venoso periférico quando este não é obtido rapidamente. As drogas têm o mesmo efeito e o mesmo tempo de ação pela via intraóssea.
Quanto tempo de RCP antes de considerar a interrupção?
Não há tempo fixo. A decisão é clínica e considera ETCO₂, ritmo, causa identificável, tempo sem RCP antes do atendimento e contexto do paciente. Em geral, após 20 a 30 minutos de ressuscitação adequada sem resposta e sem causa reversível, a discussão é pertinente.
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