Decidir quais exames pré-operatórios solicitar é uma das dúvidas mais recorrentes de quem prepara pacientes para cirurgia, e uma das que menos evoluiu na prática cotidiana. A bateria fixa para todo mundo persiste em muitos serviços, embora as evidências apontem há anos na direção oposta: a solicitação deve ser guiada pelo risco individual.
Este artigo organiza o raciocínio para que cada pedido tenha justificativa clínica e impacto real na conduta. Percorre as indicações de hemograma, coagulograma, função renal, glicemia e ECG, e o que fazer com os achados que aparecem sem que ninguém os tenha procurado.

Por que não solicitar exames em bateria?
O erro mais comum na avaliação pré-anestésica é transformar a consulta em uma lista padronizada de exames pré-operatórios, idêntica para o paciente hígido e para o cardiopata grave.
Essa conduta encarece o sistema, gera achados incidentais sem relevância clínica e atrasa cirurgias por alterações que jamais mudariam o desfecho. Cada exame desnecessário abre a porta para uma cascata de investigações que consome tempo do paciente e do serviço.
A lógica correta é simples: nenhum dos exames pré-operatórios deve ser pedido sem uma conduta prevista caso venha alterado. Se o resultado não modifica a anestesia, a técnica ou o cuidado perioperatório, ele não precisa ser solicitado naquele momento.
O que define quais exames pré-operatórios pedir?
A escolha dos exames pré-operatórios depende de quatro variáveis combinadas: idade, comorbidades, porte cirúrgico e classificação ASA.
Um adulto jovem e hígido (ASA I) para cirurgia de baixo risco raramente precisa de exames laboratoriais; já um diabético com doença renal para artroplastia exige investigação dirigida.
A estratificação de risco que orienta os exames pré-operatórios também considera a capacidade funcional do paciente. Quem sobe dois lances de escada sem sintomas tem reserva cardiopulmonar que dispensa investigações adicionais na maioria dos cenários eletivos.
Quando pedir hemograma, coagulograma e função renal?
O hemograma é justificado quando há suspeita de anemia, doença crônica, sangramento previsto significativo ou idade avançada.
Pedi-lo de rotina em jovem assintomático para procedimento de baixo risco não se sustenta, conforme discutido na investigação da anemia ferropriva e seu impacto no preparo cirúrgico.
O coagulograma só faz sentido diante de história pessoal ou familiar de sangramento, hepatopatia, uso de anticoagulantes ou cirurgia com risco hemorrágico relevante. Testes de coagulação em paciente sem fatores de risco não predizem sangramento e geram falsos alarmes.
A função renal deve ser avaliada em hipertensos, diabéticos, idosos, usuários de nefrotóxicos e cirurgias de grande porte. Esse exame orienta ajuste de fármacos e antecipa risco de lesão renal aguda, tema detalhado nos critérios KDIGO de insuficiência renal aguda.
E a glicemia, é sempre necessária?
A glicemia entra quando há diabetes, obesidade, uso de corticoides ou síndrome metabólica. O controle glicêmico perioperatório reduz infecção de sítio cirúrgico, e a dieta low carb e o manejo metabólico podem influenciar o preparo.
Em usuários de agonistas de GLP-1, vale revisar o mecanismo de ação dessas medicações pelo risco de retardo do esvaziamento gástrico.
Quando indicar ECG e avaliação cardiológica?
O eletrocardiograma deixou de ser exame universal no preparo cirúrgico, ainda que continue sendo pedido por hábito em boa parte dos serviços. Segundo a Diretriz de Avaliação Cardiovascular Perioperatória da SBC – 2024, o ECG é indicado em pacientes com doença cardiovascular conhecida, fatores de risco relevantes ou cirurgia de risco intermediário a alto, não em todo adulto.
Há boa evidência de que o ECG de rotina no paciente de baixo risco não altera desfechos, como aponta esta revisão sobre ECG na avaliação pré-operatória de baixo risco.
Saber interpretar o eletrocardiograma com segurança evita tanto subdiagnóstico quanto investigações em cascata por achados banais.
Quais sinais exigem avaliação cardiológica formal?
A avaliação cardiológica especializada é reservada a sintomas ativos: dor torácica, dispneia desproporcional, síncope ou arritmia nova. O reconhecimento precoce de uma síndrome coronariana aguda no ECG pode contraindicar a cirurgia eletiva até estabilização.
Distúrbios eletrolíticos também merecem atenção antes do bloqueio anestésico, como mostra o reconhecimento da hipercalemia no ECG. Já a avaliação da via aérea, discutida em se o IMC prediz via aérea difícil, é parte do preparo independentemente de exames laboratoriais.

Tabela: situação clínica e exame indicado
A seguir, uma síntese prática que conecta o cenário ao exame com maior probabilidade de mudar a conduta.
| Situação clínica | Exame indicado |
|---|---|
| Suspeita de anemia, sangramento previsto, idoso | Hemograma |
| História de sangramento, hepatopatia, anticoagulante | Coagulograma |
| Hipertenso, diabético, idoso, nefrotóxicos | Função renal |
| Diabetes, obesidade, uso de corticoide | Glicemia |
| Doença cardiovascular, cirurgia de risco intermediário/alto | ECG |
| Sintomas cardíacos ativos | Avaliação cardiológica |
Erros comuns que comprometem o preparo cirúrgico
Alguns deslizes se repetem e merecem revisão constante na prática. Os principais são apresentados abaixo de forma objetiva.
- Solicitar bateria de exames em paciente hígido para cirurgia de baixo risco;
- Repetir exames recentes e normais sem nova indicação clínica;
- Deixar de pedir o exame que realmente alteraria a conduta;
- Valorizar achados incidentais irrelevantes e adiar cirurgias necessárias.
Para corrigir o fluxo, vale seguir uma sequência lógica de decisão antes de cada pedido.
- Estratifique o risco por idade, comorbidades, porte cirúrgico e ASA;
- Defina quais exames pré-operatórios respondem a uma dúvida clínica concreta;
- Verifique se há resultado recente e válido antes de repetir;
- Solicite apenas o que tem conduta prevista se vier alterado.
Perguntas frequentes sobre exames pré-operatórios
Abaixo, as principais dúvidas que surgem na rotina de avaliação pré-anestésica, respondidas de forma direta.
Paciente jovem e hígido precisa de exames pré-operatórios?
Em cirurgia de baixo risco, geralmente não. A anamnese e o exame físico normais dispensam exames pré-operatórios de rotina nesse perfil.
Por quanto tempo um exame recente continua válido?
Exames normais costumam permanecer válidos por meses se não houver mudança clínica. Repetir sem motivo apenas aumenta custo e atraso.
O ECG é obrigatório antes de qualquer cirurgia?
Não. O ECG é guiado por risco cardiovascular e porte cirúrgico, não pela idade isolada nem por protocolo universal.
Quando encaminhar ao cardiologista?
Diante de sintomas ativos, como dor torácica ou dispneia desproporcional, doença cardíaca instável ou capacidade funcional reduzida em cirurgia de risco intermediário a alto. O encaminhamento sem essas condições costuma apenas adiar o procedimento sem agregar segurança.
Quem usa anticoagulante precisa de coagulograma?
Sim, e o mais importante é o planejamento que vem depois: definir o intervalo de suspensão conforme o fármaco e a função renal, e avaliar a necessidade de ponte segundo o risco trombótico. Nos anticoagulantes orais diretos, a ponte raramente é indicada.
O achado incidental que adia a cirurgia
Uma plaqueta discretamente baixa, um TSH no limite, uma alteração inespecífica de repolarização: nenhum desses achados apareceria se o exame não tivesse sido pedido sem indicação — e, uma vez no papel, todos exigem explicação, repetição e às vezes adiamento do procedimento. Pedir exames pré-operatórios sem critério não é apenas caro: cria problemas que não existiam.
Sair desse ciclo exige segurança para interpretar cada resultado e decidir o que merece investigação. O livro Exames Laboratoriais em Nutrologia desenvolve essa leitura crítica do laboratório, que sustenta tanto o pedido quanto a decisão de não pedir.