Classifique a desidratação na criança pelos sinais certos e acerte o plano de reidratação

desidratação na criança

A desidratação na criança está entre as causas mais frequentes de atendimento na emergência pediátrica, quase sempre por gastroenterite viral. O desfecho depende menos do soro escolhido e mais da rapidez em reconhecer o grau de perda.

O erro mais comum no plantão é esperar todos os sinais clássicos para chamar a criança de grave. A tabela oficial exige apenas dois sinais, e a criança com lágrimas ausentes e mucosa muito seca liberada para casa costuma voltar em choque hipovolêmico.

desidratação na criança
A solução de reidratação oral oferecida em pequenos volumes e com frequência reduz o vômito e evita boa parte das punções venosas.

Como classificar a desidratação na criança na emergência?

Quais sinais separam os planos A, B e C?

O quadro resume as variáveis do cartaz oficial, escolhidas por sensibilidade e especificidade. A leitura é feita coluna a coluna, comparando a criança com cada descrição.

Sinal Sem desidratação (A) Com desidratação (B) Desidratação grave (C)
Estado geral Ativo, alerta Irritado, intranquilo Letárgico, hipotônico ou inconsciente
Olhos e lágrimas Normais, lágrimas presentes Fundos, lágrimas ausentes Fundos, lágrimas ausentes
Sede Sem sede Bebe rápido e avidamente Não consegue beber
Boca e língua Úmidas Secas ou levemente secas Muito secas
Sinal da prega Desaparece imediatamente Desaparece lentamente Muito lento, mais de 2 segundos
Pulso Cheio Cheio Fraco ou ausente

A regra é dois ou mais sinais para plano B e dois ou mais, com pelo menos um de gravidade, para plano C. O cartaz de manejo do paciente com diarreia do Ministério da Saúde traz ainda a orientação de adotar o pior cenário quando houver dúvida.

Por que taquicardia muda a leitura da tabela?

A tabela não inclui frequência cardíaca, o que engana quem avalia só a hidratação. Criança desidratada com taquicardia, pulso fino e enchimento capilar lento já está em choque compensado, mesmo com pressão normal. A hipotensão é sinal tardio, e esperar por ela significa expandir tarde demais.

Qual é o plano de reidratação para cada grau de desidratação na criança?

O que prescrever no plano A?

A família oferece líquidos após cada evacuação: 50 a 100 mL abaixo de 1 ano e 100 a 200 mL entre 1 e 10 anos. A alimentação habitual é mantida, sem refrigerantes nem sucos industrializados.

O zinco entra uma vez ao dia por 10 a 14 dias: 10 mg/dia até 6 meses e 20 mg/dia de 6 meses a 5 anos. Antidiarreicos não têm indicação, e antibiótico fica restrito à disenteria com estado geral comprometido.

Como conduzir a terapia de reidratação oral no plano B?

A orientação inicial é 50 a 100 mL/kg de solução de reidratação oral em 4 a 6 horas, com média de 75 mL/kg. Se a desidratação persiste, o passo seguinte é a gastróclise, e a ausência de melhora em 6 horas indica internação.

Se houver vômitos persistentes, cabe dose única de ondansetrona: 2 mg dos 6 meses aos 2 anos, 4 mg dos 2 aos 10 anos e 8 mg acima de 10 anos. O documento científico da SBP sobre diarreia aguda infecciosa detalha as bases dessas condutas unificadas.

desidratação na criança
Na fase de manutenção, a velocidade da infusão depende do peso e das perdas que continuam, e não de um volume fixo.

Como fazer a expansão da desidratação na criança grave sem atrasar o acesso?

No plano C, o ganho de tempo vem da ordem dos passos. A sequência abaixo organiza a primeira hora, porque a demora no acesso transforma desidratação grave em parada.

  1. Monitorizar, oferecer oxigênio e medir glicemia capilar na chegada;
  2. Tentar acesso periférico calibroso, idealmente 20G ou maior, por no máximo duas tentativas;
  3. Sem sucesso, puncionar o intraósseo, com agulha própria ou, no lactente, agulha hipodérmica calibrosa quando ela faltar;
  4. Infundir soro fisiológico 0,9% ou Ringer lactato e reavaliar após cada etapa;
  5. Iniciar solução de reidratação oral assim que a criança conseguir beber, em geral 2 a 3 horas depois.

Quais volumes e tempos usar por faixa etária?

Abaixo de 1 ano, o cartaz prevê 30 mL/kg em 1 hora e depois 70 mL/kg em 5 horas. A partir de 1 ano, são 30 mL/kg em 30 minutos seguidos de 70 mL/kg em 2 horas e 30 minutos.

Havendo choque, seguem-se alíquotas de 10 a 20 mL/kg em 5 a 20 minutos, com reavaliação a cada uma. Choque após a terceira alíquota indica terapia intensiva e provável droga vasoativa.

Por que o cateter fino sabota o plano C?

Um lactente de 10 kg precisa receber 200 mL em minutos, e um cateter 24G não entrega esse fluxo. A infusão fica aquém do prescrito, e o intraósseo, que aceita bolus com seringa, resolve o problema.

Quais erros de manutenção pioram a desidratação na criança?

Qual soro usar na hidratação de manutenção?

O volume segue Holliday-Segar: 100 mL/kg até 10 kg, 1.000 mL mais 50 mL/kg entre 10 e 20 kg e 1.500 mL mais 20 mL/kg acima disso. Perdas contínuas são repostas à parte.

O cartaz ainda traz soro glicosado e fisiológico na proporção 4:1, que é hipotônico. A tendência atual é manutenção isotônica, porque o ADH elevado da criança doente favorece hiponatremia, cuja correção no plantão exige ritmo controlado.

Quando pedir exames na desidratação na criança?

A criança do plano A ou B raramente precisa de laboratório. A indicação surge na gravidade, na evolução atípica ou quando a causa pode não ser gastroenterite, situações que merecem atenção dobrada.

  • Desidratação grave ou choque, com gasometria, eletrólitos e função renal;
  • Alteração de consciência ou convulsão, que sugerem distúrbio de sódio ou hipoglicemia;
  • Glicemia alta com poliúria, que aponta para cetoacidose diabética e não para gastroenterite;
  • Lactente pequeno com fezes com sangue, que obriga a afastar invaginação intestinal;
  • Febre de 39 °C ou mais, que exige procurar pneumonia, otite ou infecção urinária.

Perguntas frequentes sobre desidratação na criança

As dúvidas abaixo surgem com frequência na passagem de plantão pediátrico. Cada resposta traz a conduta prática que resolve o caso.

Como saber se a desidratação na criança é grave?

É grave quando há dois ou mais sinais do quadro, sendo pelo menos um de gravidade: letargia, incapacidade de beber ou pulso fraco. Taquicardia com enchimento capilar lento indica choque, mesmo sem hipotensão.

A desidratação na criança sempre exige soro na veia?

Não, a maioria responde à reidratação oral supervisionada. A via venosa fica para desidratação grave, alteração do sensório ou falha do plano B.

Ondansetrona pode ser usada em qualquer idade?

O cartaz prevê o uso a partir dos 6 meses, apenas com vômitos persistentes no plano B. A dose é única e serve para a criança tolerar a solução oral.

Quando o potássio entra na hidratação venosa?

O potássio é adicionado na manutenção depois de confirmada diurese. O cartaz prevê cloreto de potássio a 10% na proporção de 2 mL para cada 100 mL, e a reposição segura de potássio depende do controle laboratorial.

Febre alta muda a conduta na desidratação na criança?

Muda, porque temperatura de 39 °C ou mais obriga a buscar outro foco além do intestino. No lactente pequeno, a estratificação da febre sem sinais localizatórios segue regras próprias por idade.

Desidratação na criança que volta em 24 horas

O lactente liberado de madrugada com lágrimas ausentes e boca seca retorna no fim da tarde, hipoativo e taquicárdico. Faltou contar dois sinais na tabela, observar a aceitação oral ou insistir no intraósseo a tempo.

Esse tipo de decisão rápida sobre desidratação na criança, com cálculo de volume, escolha de acesso e leitura de eletrólitos, é treinado com casos reais na Pós-Graduação em Emergências Pediátricas e Neonatais do Instituto CDT. A pós-graduação foi pensada para quem atende criança grave sem intensivista ao lado.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Compartilhe este post:

Posts relacionados

Sem mais posts para mostrar