A sepse: critérios diagnósticos é uma das discussões mais importantes da medicina intensiva — e uma das que mais evoluiu na última década. Segundo a Organização Mundial da Saúde, a sepse é responsável por cerca de 11 milhões de mortes por ano no mundo, representando aproximadamente 20% de todas as mortes. No Brasil, estima-se que ocorram cerca de 670 mil casos anuais, com taxa de mortalidade que pode chegar a 55%.
O reconhecimento precoce é a principal estratégia de redução de mortalidade. Quando o diagnóstico se torna evidente com múltiplos parâmetros fisiológicos alterados, o risco já é muito alto. Entender a evolução das definições — de Sepsis-2 para Sepsis-3 — e aplicar corretamente os critérios à beira do leito é o que diferencia uma conduta precoce de uma intervenção tardia.
O que mudou com o Sepsis-3?
Antes de 2016, a definição mais utilizada era a Sepsis-2, baseada na Síndrome da Resposta Inflamatória Sistêmica (SRIS).
O diagnóstico exigia a presença de infecção associada a pelo menos dois dos seguintes critérios: temperatura elevada ou baixa, frequência cardíaca acima de 90 bpm, frequência respiratória acima de 20 ipm e leucocitose ou leucopenia.
A limitação desse modelo era sua baixa especificidade: a resposta SRIS pode ser adaptativa e não necessariamente patológica.
Em 2016, a Society of Critical Care Medicine e a European Society of Intensive Care Medicine publicaram o Sepsis-3, redefinindo a condição como uma disfunção orgânica com risco de vida causada por uma resposta desregulada do hospedeiro a uma infecção.
Qual é a definição atual de sepse pelo Sepsis-3?
A sepse: critérios diagnósticos pelo Sepsis-3 exige a presença de infecção suspeita ou confirmada associada a aumento de 2 pontos ou mais no escore SOFA (Sequential Organ Failure Assessment).
Essa mudança deslocou o foco do processo inflamatório para a disfunção orgânica — critério com maior correlação com mortalidade.
O choque séptico foi redefinido como subconjunto da sepse com hipotensão persistente que requer vasopressores para manter pressão arterial média ≥ 65 mmHg E lactato sérico acima de 2 mmol/L (> 18 mg/dL), apesar de reposição volêmica adequada. Essa combinação está associada a mortalidade superior à da sepse isolada.
O termo “sepse grave” ainda é válido?
Não. O Sepsis-3 determinou que o termo “sepse grave” deve ser considerado redundante com base nas revisões da definição.
Pela definição atual, toda sepse já pressupõe disfunção orgânica — o que anteriormente seria chamado de “sepse grave”. O vocabulário correto é simplesmente sepse ou choque séptico.
O que é o escore SOFA e como aplicar?
O SOFA avalia seis sistemas orgânicos, cada um pontuado de 0 a 4, totalizando até 24 pontos. A pontuação maior indica disfunção orgânica mais grave. Os sistemas avaliados são:
- Respiratório: relação PaO₂/FiO₂;
- Cardiovascular: pressão arterial média;
- Hepático: bilirrubina sérica;
- Coagulação: contagem de plaquetas;
- Renal: creatinina sérica ou diurese;
- Neurológico: Escala de Coma de Glasgow.
Um aumento ≥ 2 na pontuação do SOFA em relação ao basal está associado à disfunção orgânica com risco de mortalidade de aproximadamente 10% — o que constitui o limiar diagnóstico da sepse: critérios diagnósticos pelo Sepsis-3.
Quando usar qSOFA no lugar do SOFA?
O SOFA exige exames laboratoriais, o que limita sua aplicabilidade em triagem rápida fora da UTI. Para esse cenário, foi proposto o quick SOFA (qSOFA), que avalia três critérios clínicos à beira do leito:
- Frequência respiratória ≥ 22 ipm;
- Pressão arterial sistólica ≤ 100 mmHg;
- Alteração do nível de consciência.
A presença de ≥ 2 critérios indica necessidade de avaliação clínica e laboratorial complementar. O qSOFA é mais útil para pacientes fora da UTI: em pacientes já internados na terapia intensiva, o SOFA é preditor superior de mortalidade hospitalar.
Médicos que atuam em plantões de 24 horas devem ter o qSOFA automatizado no raciocínio de triagem — é uma ferramenta rápida, sem necessidade de laboratório, que permite antecipar casos de alto risco antes dos critérios SOFA completos.
Comparativo entre as definições de sepse
| Critério | Sepsis-2 (SRIS) | Sepsis-3 |
|---|---|---|
| Base | Resposta inflamatória sistêmica | Disfunção orgânica |
| Ferramenta | SRIS (2+ critérios) | SOFA ≥ 2 pontos |
| Aplicação rápida | Sim | qSOFA (triagem) |
| “Sepse grave” | Existia | Eliminada |
| Choque séptico | Hipotensão + ressuscitação | MAP < 65 mmHg + lactato > 2 mmol/L |
| Foco | Inflamação | Mortalidade |

Protocolo de tratamento: o que fazer na primeira hora?
O reconhecimento precoce e o tratamento imediato são os principais determinantes do prognóstico. Quando há doença crítica na apresentação — choque séptico confirmado, sepse com deterioração rápida ou escore NEWS2 ≥ 7 — as seguintes ações devem ser iniciadas em até 1 hora:
- Coletar dois conjuntos de hemoculturas antes dos antibióticos;
- Medir lactato sérico em gasometria arterial;
- Avaliar débito urinário horário;
- Iniciar antibióticos intravenosos de amplo espectro;
- Administrar fluidoterapia IV se houver sinais de insuficiência circulatória;
- Fornecer oxigênio suplementar conforme necessidade.
Qual é a meta de ressuscitação volêmica na sepse?
A reposição hídrica inicial utiliza cristaloide isotônico balanceado — a maioria dos pacientes requer no mínimo 30 mL/kg nas primeiras 4 a 6 horas.
O objetivo não é administrar um volume fixo, mas atingir reperfusão tecidual sem causar edema pulmonar por sobrecarga.
Os alvos de ressuscitação incluem ScvO₂ ≥ 70% e depuração de lactato de 10 a 20% em 6 a 8 horas. Soluções à base de amido hidroxietílico (HES) estão contraindicadas pela associação com maior mortalidade.
Quando iniciar vasopressores no choque séptico?
Se o paciente permanece hipotenso após ressuscitação volêmica adequada, a noradrenalina é a vasopressora de escolha para manter PAM ≥ 65 mmHg.
A vasopressina (até 0,03 unidades/minuto) pode ser associada como segunda linha. A adrenalina é reservada para os casos que requerem uma terceira droga.
Vasoconstrição excessiva com doses altas pode causar hipoperfusão de órgãos e acidose — o titulamento preciso é obrigatório. Médicos que buscam sair da dependência de plantões dominando medicina intensiva precisam internalizar esse raciocínio hemodinâmico como parte central da prática clínica.
Antibióticos: início imediato e cobertura empírica
Os antibióticos parenterais devem ser iniciados o mais rápido possível após a coleta das hemoculturas — o atraso aumenta a mortalidade.
A cobertura empírica deve contemplar Gram-positivos e Gram-negativos. Quando disponível, o antibiograma institucional deve orientar a escolha inicial.
Regimes comuns incluem vancomicina ou linezolida para cobertura Gram-positiva, combinados com piperacilina-tazobactam, cefalosporinas de 3ª ou 4ª geração, imipenêmicos ou aminoglicosídeos para Gram-negativos.
Em pacientes imunocomprometidos, adicionar antifúngico empírico. A cobertura de amplo espectro deve ser reavaliada e descalonada assim que cultura e sensibilidade estiverem disponíveis.
Perguntas frequentes sobre sepse: critérios diagnósticos
As dúvidas abaixo refletem os questionamentos mais frequentes de médicos que manejam a sepse: critérios diagnósticosem urgências e UTIs.
Todo paciente com qSOFA ≥ 2 tem sepse?
Não necessariamente. O qSOFA é uma ferramenta de triagem — indica necessidade de investigação complementar, não diagnóstico definitivo. O diagnóstico de sepse: critérios diagnósticos exige infecção associada a SOFA ≥ 2. O qSOFA identifica pacientes de risco fora da UTI que devem ser avaliados com prioridade.
Lactato elevado sem hipotensão define choque séptico?
Sim. O Sepsis-3 define choque séptico pela combinação de necessidade de vasopressores para manter PAM ≥ 65 mmHg E lactato > 2 mmol/L — independentemente da presença de hipotensão clinicamente observável. O lactato é marcador de hipoperfusão tecidual mesmo sem hipotensão aparente.
Corticoides devem ser usados rotineiramente na sepse?
Não rotineiramente. A hidrocortisona está indicada em choque séptico refratário — pressão arterial sistólica persistentemente abaixo de 90 mmHg por mais de 1 hora após ressuscitação adequada, vasopressores, controle da fonte e antibióticos. Nesse cenário, não é necessário aguardar teste de cortisol antes de iniciar o tratamento.
Qual o papel do POCUS no diagnóstico de choque séptico?
A ecocardiografia à beira do leito é um método não invasivo de monitoramento hemodinâmico. No choque séptico, o débito cardíaco aumenta e a resistência vascular periférica diminui — padrão oposto ao do choque cardiogênico. O POCUS também avalia a veia cava inferior para estimar a responsividade hídrica antes de novos volumes.
Sepse: critérios diagnósticos e formação em medicina de emergência
Dominar a sepse: critérios diagnósticos — SOFA, qSOFA, choque séptico, ressuscitação volêmica e protocolo de antibióticos — é uma das competências mais exigidas em urgências e UTIs.
Médicos que atuam nesse nível de complexidade precisam de formação estruturada, baseada em protocolos atualizados e aplicáveis à realidade brasileira.
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