Em 9 de setembro de 2026, o JAMA publicou o AIROPLANE, ensaio sobre oxigênio na reanimação neonatal de prematuros de 32 a 35 semanas. Iniciar com FiO2 de 0,30, em vez de ar ambiente, não mudou a proporção de bebês que saíram da sala de parto em suporte respiratório.
A dúvida tem peso extra no Brasil, porque as diretrizes 2026 do Programa de Reanimação Neonatal da SBP, publicadas em junho, separam a conduta em 34 semanas. Abaixo desse corte, a ventilação começa com 60% de oxigênio; a partir dele, com ar ambiente, e o AIROPLANE atravessou exatamente essa fronteira.

O que o AIROPLANE testou sobre oxigênio na reanimação neonatal?
O estudo comparou duas concentrações iniciais de oxigênio nos primeiros 3 minutos de suporte na sala de parto. Até então, a FiO2 inicial ideal para a faixa de 32 a 35 semanas era desconhecida.
Como o estudo foi desenhado?
Foi um ensaio randomizado por cluster com crossover, em 26 maternidades australianas públicas e privadas, entre dezembro de 2022 e setembro de 2025. Cada hospital usava uma FiO2 inicial e trocava para a outra na metade do período, com dispensa de consentimento individual.
Quem eram os recém-nascidos?
Entraram 1.818 bebês de 32 a 35 semanas, sem malformação maior conhecida, que precisaram de suporte nos primeiros 3 minutos de vida. A idade gestacional média foi de 34,1 semanas e o peso médio de 2.165 g, conforme o resumo do estudo no PubMed.
Quais resultados o AIROPLANE mostrou?
O desfecho primário foi neutro, mas dois dos 12 desfechos secundários favoreceram a FiO2 de 0,30. A tabela reúne os principais números, com os percentuais de cada grupo.
| Desfecho | FiO2 0,30 | FiO2 0,21 |
|---|---|---|
| Suporte respiratório ao sair da sala de parto (primário) | 72,6% (700/964) | 73,3% (626/854) |
| Ventilação não invasiva com pressão positiva na sala | 62,9% | 65,6% |
| Compressões torácicas ou adrenalina na sala | 2,0% (19/964) | 2,9% (25/854) |
| Ventilação endotraqueal após a sala de parto | 6,4% (61/959) | 9,3% (79/852) |
Por que o desfecho primário não mudou?
Cerca de três em cada quatro bebês ainda estavam em suporte ao deixar a sala nos dois grupos, com diferença de risco de -0,83 ponto percentual. O intervalo de confiança, de -4,33 a 2,67, afasta um efeito relevante da FiO2 inicial sobre esse desfecho.
O que os desfechos secundários sugerem?
O grupo 0,30 precisou menos de suporte mais intenso na sala de parto, com razão de chances proporcional de 0,70. Também houve menos ventilação endotraqueal depois da sala, com risco relativo de 0,69, mas desfechos secundários servem para gerar hipóteses, não para mudar a conduta.

Como é feito o oxigênio na reanimação neonatal no Brasil hoje?
As diretrizes do PRN-SBP de junho de 2026 adotam condutas diferentes conforme a idade gestacional, e os dois textos completos estão na página de reanimação neonatal da SBP. A mudança mais recente foi no prematuro abaixo de 34 semanas.
O que mudou no prematuro abaixo de 34 semanas?
A SBP passou a recomendar o início da ventilação com oxigênio a 60%, titulando pela oximetria de pulso pré-ductal. A decisão se apoia em metanálise de bebês com menos de 32 semanas, na qual a FiO2 inicial alta se associou a menor chance de óbito hospitalar.
E a partir de 34 semanas?
A ventilação começa com ar ambiente, e o oxigênio suplementar só entra se a saturação não atingir o alvo. Antes de aumentar a oferta, a diretriz manda verificar e corrigir a técnica da ventilação, porque oxigênio com máscara mal ajustada não melhora o bebê.
O que muda na sala de parto com o oxigênio na reanimação neonatal?
Na prática brasileira, nada muda de imediato, porque o AIROPLANE comparou 0,30 com 0,21, e não com os 60% da SBP. O estudo reforça que, entre 34 e 35 semanas, começar com ar ambiente não piorou o desfecho principal.
Quais são as metas de saturação?
A titulação segue a saturação pré-ductal esperada para cada minuto de vida, igual nos dois textos da SBP. Os alvos abaixo orientam quando aumentar ou reduzir o oxigênio em 20% a cada 30 segundos, com uso obrigatório do blender.
- Aos 2 minutos de vida, SpO2 pré-ductal entre 65% e 70%;
- Aos 3 minutos, SpO2 entre 70% e 75%;
- Aos 4 minutos, SpO2 entre 75% e 80%;
- Aos 5 minutos, SpO2 entre 80% e 85%;
- Aos 10 minutos, SpO2 entre 85% e 95%.
Como preparar a sala antes do nascimento?
A concentração inicial precisa estar definida antes do parto, e não decidida com o bebê já em apneia. A sequência a seguir organiza o preparo, que é tema central nas emergências neonatais.
- Confirmar a idade gestacional para escolher entre ar ambiente e oxigênio a 60%;
- Testar o blender e deixar a FiO2 inicial já ajustada no equipamento;
- Preparar o oxímetro para posicionar o sensor no membro superior direito;
- Iniciar a ventilação no primeiro minuto de vida quando houver apneia ou FC abaixo de 100 bpm;
- Corrigir a técnica ventilatória antes de qualquer aumento de oxigênio.
Esse roteiro depende de treino em equipe, e a capacitação em urgência e emergência neonatal usa simulação para fixar cada etapa. Sem ensaio prévio, o oxigênio na reanimação neonatal tende a ser ajustado no improviso.
Nos prematuros que seguem em suporte após a sala, a continuidade do tratamento acontece no cuidado intensivo neonatal. A FiO2 usada no nascimento deve constar na passagem de caso para a equipe da unidade.
Perguntas frequentes sobre oxigênio na reanimação neonatal
As dúvidas mais comuns após a publicação vêm a seguir. As respostas se limitam ao estudo e às diretrizes da SBP.
O AIROPLANE muda o oxigênio na reanimação neonatal no Brasil?
Não de imediato, porque as diretrizes vigentes da SBP continuam sendo a referência nacional. O estudo não testou 60%, concentração recomendada abaixo de 34 semanas.
Qual FiO2 usar no oxigênio na reanimação neonatal de 33 semanas?
Pela diretriz de junho de 2026 da SBP, o bebê abaixo de 34 semanas inicia a ventilação com oxigênio a 60%. A oferta é ajustada em seguida conforme a saturação pré-ductal de cada minuto.
Por que o AIROPLANE não pediu consentimento dos pais?
O desenho por cluster randomizou hospitais, não bebês, e as duas concentrações já eram usadas na prática clínica. Nesse contexto, o estudo foi conduzido com dispensa do consentimento individual.
O oxigênio na reanimação neonatal a 30% reduziu intubações?
Houve menos ventilação endotraqueal após a sala de parto no grupo 0,30, de 6,4% contra 9,3%. Por ser desfecho secundário, o achado precisa de confirmação, e a técnica de intubação pediátrica segue indispensável.
Por que medir a saturação na mão direita?
A mão direita recebe sangue antes do canal arterial, e por isso reflete a oxigenação cerebral e coronariana. A medida pós-ductal pode subestimar a saturação real durante a transição.
Oxigênio na reanimação neonatal e o blender às 2 horas
O parto de 33 semanas chega às 2 horas da manhã, e o residente pergunta se o blender fica em 21%, 30% ou 60%. A resposta sobre oxigênio na reanimação neonatal mudou em junho e ganhou estudo novo em setembro, e quem não acompanhou decide inseguro no primeiro minuto de vida.
Conduzir a sala de parto com firmeza exige diretriz atualizada e treino repetido. A pós-graduação em Emergências Pediátricas e Neonatais do Instituto CDT prepara o médico para a reanimação neonatal e as urgências da infância com casos práticos.