O planejamento familiar exige mais do que prescrever a pílula mais conhecida do balcão. A escolha do anticoncepcional equilibra eficácia real, perfil de risco e preferência informada, sempre sob o filtro dos critérios de elegibilidade — e decidir por hábito, em vez de método estruturado, é a raiz dos erros mais graves na contracepção.
Este texto sistematiza a escolha do anticoncepcional com base nos Critérios de Elegibilidade da Organização Mundial da Saúde (OMS) e nas orientações da Febrasgo. O objetivo é prático: um raciocínio reprodutível para o consultório, capaz de reduzir eventos adversos e gestações não planejadas.

Por que aplicar critérios de elegibilidade antes de prescrever?
Os Critérios Médicos de Elegibilidade da OMS classificam cada método em quatro categorias, conforme a condição clínica da paciente. Eles transformam uma decisão intuitiva em conduta baseada em evidência, evitando contraindicações silenciosas.
A lógica protege paciente e médico: a categoria 1 libera o uso sem restrição; a 2 indica benefício superior ao risco; a 3 desaconselha, admitindo exceções justificadas; e a 4 representa risco inaceitável, sem margem para negociação.
| Categoria OMS | Significado | Conduta prática |
|---|---|---|
| 1 | Sem restrição | Pode usar |
| 2 | Benefício > risco | Em geral pode usar |
| 3 | Risco > benefício | Geralmente evitar |
| 4 | Risco inaceitável | Não usar |
O que perguntar na primeira consulta?
A anamnese dirigida sustenta a escolha do anticoncepcional. Idade, tabagismo, pressão arterial, tromboembolismo venoso (TEV), trombofilia, padrão de enxaqueca e tempo de pós-parto definem boa parte das categorias 3 e 4. Sem esses dados, a prescrição vira um chute.
Quais as diferenças entre métodos combinados e só progestágeno?
Os contraceptivos hormonais combinados associam estrogênio e progestágeno; os de progestágeno isolado dispensam o estrogênio, justamente o componente ligado ao risco trombótico. Essa distinção orienta quase todas as decisões de segurança.
Quando há contraindicação ao estrogênio, o progestágeno isolado costuma ser a saída segura. Pacientes que buscam métodos que não elevam a SHBG hepática também se beneficiam, tema ligado à testosterona feminina.
Quando preferir o progestágeno isolado?
Lactação, risco cardiovascular elevado, enxaqueca com aura e histórico de TEV favorecem o progestágeno isolado. Pílula de desogestrel, injetável trimestral, implante e sistema intrauterino com levonorgestrel evitam a carga estrogênica.
Por que os LARC mudam a conversa sobre eficácia?
Os métodos reversíveis de longa duração (long-acting reversible contraception, LARC) — DIU de cobre, sistema intrauterino hormonal e implante subdérmico — eliminam o erro de uso, principal fonte de falha.
Por esse motivo, a Febrasgo os posiciona como primeira linha para grande parte das pacientes, incluindo adolescentes e nulíparas, situação em que ainda persiste resistência sem respaldo na evidência.
A diferença entre eficácia típica e perfeita explica o protagonismo dos LARC. Métodos dependentes da adesão diária têm desempenho real inferior ao teórico, enquanto os LARC mantêm proteção quase idêntica nas duas medidas.
- DIU de cobre: sem hormônio, útil quando há contraindicação a esteroides;
- Sistema intrauterino com levonorgestrel: reduz fluxo menstrual e dismenorreia;
- Implante de etonogestrel: maior eficácia típica entre os métodos reversíveis;
- Injetável trimestral: opção de progestágeno isolado com aplicação espaçada.
Quais as falhas típicas de cada método?
A tabela resume contraindicação dominante e eficácia típica, apoiando a escolha do anticoncepcional em cada perfil.
| Método | Contraindicação-chave | Eficácia típica |
|---|---|---|
| Combinado oral | Enxaqueca com aura, TEV, tabagismo >35 anos | ~91% |
| Progestágeno isolado | Poucas restrições absolutas | ~91–94% |
| Implante subdérmico | Pouquíssimas restrições | >99% |
| DIU de cobre/hormonal | Distorção uterina, infecção pélvica ativa | >99% |
| Injetável trimestral | Risco cardiovascular acentuado | ~94% |

Quais condições contraindicam os combinados?
O estrogênio amplia o risco tromboembólico, e algumas condições o tornam inaceitável. Reconhecê-las é onde a escolha do anticoncepcional protege a paciente de eventos graves, como a trombose venosa profunda e o tromboembolismo pulmonar.
São situações classicamente categoria 4 para os combinados, conforme os critérios de elegibilidade:
- História de TEV, trombofilia conhecida ou trombose atual;
- Enxaqueca com aura, em qualquer idade;
- Tabagismo em mulheres com 35 anos ou mais;
- Hipertensão arterial grave ou doença vascular estabelecida;
- Pós-parto recente, sobretudo nas primeiras semanas e na lactante.
O peso do estrogênio sobre a coagulação também aparece na terapia hormonal do climatério, em que via e perfil de risco comandam a decisão.
Como avaliar a enxaqueca antes de prescrever?
A presença de aura é o divisor de águas, pois eleva o risco de acidente vascular cerebral com o estrogênio. Diante dela, os combinados ficam contraindicados, e o progestágeno isolado ou métodos não hormonais assumem a frente.
Erros comuns na escolha do anticoncepcional
Os deslizes mais frequentes nascem da pressa da consulta e da ausência de um roteiro fixo de anamnese. Reconhecê-los é o que sustenta uma escolha do anticoncepcional segura, sobretudo nas pacientes que chegam pedindo um método específico por indicação de amigas.
- Prescrever combinado a paciente com risco trombótico evidente;
- Não aplicar formalmente os critérios de elegibilidade da OMS;
- Ignorar a enxaqueca com aura na anamnese;
- Confundir eficácia perfeita com eficácia típica ao orientar;
- Subutilizar LARC por desconhecimento ou inércia.
Vale lembrar ainda que o injetável trimestral tem impacto sobre a massa óssea em uso prolongado, tema que dialoga com a fisiopatologia da osteoporose e merece ponderação em adolescentes e em usuárias de longo prazo.
Perguntas frequentes sobre escolha do anticoncepcional
Abaixo, as principais dúvidas práticas que orientam a conduta no consultório.
LARC pode ser primeira linha em nulíparas?
Sim. DIU e implante são seguros em nulíparas e adolescentes, e a paridade não figura como contraindicação nos critérios atuais. A recusa baseada em “ainda não teve filhos” é uma barreira cultural, não técnica.
Combinado é seguro na lactação?
Não nas primeiras semanas. O pós-parto recente em lactante é categoria 3 ou 4 para os combinados, pelo risco trombótico somado e pelo possível efeito sobre a lactação. O progestágeno isolado é a alternativa segura nesse período.
Como rastrear trombofilia antes da pílula?
O rastreio universal não é recomendado. Vale a anamnese de TEV pessoal e familiar; havendo restrição, considere alternativas hormonais.
Eficácia típica importa mais que a perfeita?
Para o aconselhamento real, sim. A eficácia típica reflete o uso cotidiano, com esquecimentos e atrasos, e é ela que se traduz em gestações não planejadas. Apresentar os dois números à paciente costuma mudar a escolha do método.
Hipertensão controlada contraindica combinados?
Geralmente categoria 3. A hipertensão grave é categoria 4; nesses casos, prefira progestágeno isolado ou método não hormonal.
A pergunta de dez segundos na escolha do anticoncepcional
“Sua dor de cabeça vem com alteração visual antes?” leva dez segundos e é, provavelmente, a pergunta com melhor relação custo-benefício de toda a consulta de contracepção. A enxaqueca com aura torna o combinado categoria 4, e o AVC em mulher jovem é o desfecho que ninguém quer explicar depois. A escolha do anticoncepcional se joga nesses detalhes de anamnese, não na marca da pílula.
Transformar esse tipo de checagem em rotina automática — critérios de elegibilidade aplicados de verdade, não de memória — é o que separa a prescrição defensável da exposição desnecessária. A Pós-Graduação em Saúde da Mulher do Instituto CDT estrutura esse raciocínio com a prática clínica que o consultório exige.