A puberdade precoce é definida pelo surgimento de caracteres sexuais secundários antes dos 8 anos em meninas e antes dos 9 anos em meninos. A queixa chega como broto mamário ou pelos pubianos notados pela mãe, e o pediatra precisa separar variante benigna de doença progressiva.
Uma menina de 6 anos e 7 meses com mama M2, LH basal de 0,73 UI/L e idade óssea de 8 anos e 10 meses resume o problema. O eixo já despertou e o bloqueio se justifica, mas os quadros limítrofes pedem mais critério.

Como diferenciar puberdade precoce central de periférica?
A forma central depende de gonadotrofinas, porque o hipotálamo antecipa a secreção pulsátil de GnRH. A periférica independe delas, com esteroide sexual vindo de adrenal, gônada ou fonte externa, e a mista surge quando um quadro periférico acaba ativando o eixo.
Quais causas pesam em meninas e em meninos?
Em meninas, a maioria dos casos centrais é idiopática, e o risco de lesão do sistema nervoso central é menor. Em meninos a lógica se inverte, com hamartoma hipotalâmico e tumores entre as causas a afastar sempre, além de mutações em genes como MKRN3, KISS1 e DLK1.
Quais sinais sugerem origem periférica?
Manchas café com leite e displasia óssea apontam para McCune-Albright, e testículo aumentado unilateral sugere tumor. Virilização em menina lembra hiperplasia adrenal congênita, e o hipotireoidismo prolongado sem tratamento também entra no diagnóstico diferencial.
Quais exames confirmam a puberdade precoce?
O LH é o marcador central do início puberal, mas sua secreção pulsátil gera falsos negativos numa coleta isolada. A tabela reúne os cortes usados no protocolo do SUS e como interpretá-los.
| Exame | Achado sugestivo | Observação prática |
|---|---|---|
| LH basal | Acima de 0,3 UI/L (ICMA) ou 0,6 UI/L (IFMA) | Em meninas há sobreposição com valores pré-puberais |
| LH após GnRH 100 mcg EV | Pico acima de 5 UI/L | Coletas em 0, 30 e 60 minutos |
| LH 2 a 3 h após leuprorrelina 3,75 mg | Acima de 10 UI/L (IFMA) ou 8 UI/L (quimioluminescência) | Alternativa quando falta GnRH |
| Idade óssea | Avanço de 1 ano ou 2 desvios-padrão | Método de Greulich-Pyle |
| Ultrassom pélvico | Útero acima de 35 mm ou 2 mL, piriforme | Exame adicional, não obrigatório |
Quando pedir ressonância na puberdade precoce?
A ressonância de sistema nervoso central é recomendada para todos os meninos e para meninas com menos de 6 anos com diagnóstico clínico e laboratorial. Entre 6 e 8 anos, nas meninas, ela fica reservada para cefaleia, alteração visual ou outro sinal neurológico.
O que investigar na pubarca ou telarca isolada?
Na pubarca isolada, o sulfato de DHEA elevado para a idade sinaliza adrenarca, e 17-hidroxiprogesterona com androgênios afastam hiperplasia adrenal. Telarca entre 0 e 2 anos costuma refletir a minipuberdade fisiológica do lactente e regride sem tratamento.

Quem tem indicação de tratar a puberdade precoce?
Idade de início isolada não basta, porque formas lentamente progressivas terminam com estatura adequada sem remédio. Os critérios do Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Puberdade Precoce Central exigem progressão rápida, crescimento acelerado ou prejuízo estatural documentado.
O que é puberdade rapidamente progressiva?
É a mudança de estágio de Tanner em menos de 3 meses, geralmente com velocidade de crescimento acima de 6 cm por ano. Ela também reduz a altura final, mesmo quando começa perto da idade limite.
Qual o papel da previsão de estatura?
Previsão abaixo do percentil 2,5 ou abaixo da estatura-alvo familiar, com margem de 8 cm, pesa a favor do bloqueio. O ganho estatural é mais consistente no início precoce, e o consenso sobre análogos de GnRH em crianças considera o benefício indiscutível em meninas com menos de 6 anos.
Alguns pontos da anamnese mudam a conduta e costumam ser esquecidos. A lista reúne os que mais escapam na primeira consulta.
- Perguntar sobre gel de testosterona usado por pai ou avô, já que o contato na pele transfere hormônio, tema detalhado na reposição de testosterona;
- Investigar óleos de lavanda ou melaleuca aplicados na pele, associados a telarca e ginecomastia pré-puberais;
- Revisar exposição a ftalatos e bisfenol A em plásticos aquecidos, cosméticos e maquiagem infantil;
- Registrar ganho de peso recente, porque a obesidade em crianças se associa ao início puberal mais cedo.
Como conduzir o bloqueio da puberdade precoce?
Agonistas de GnRH de depósito dessensibilizam o gonadotrofo e fazem os caracteres estacionarem ou regredirem. Não há superioridade entre as formulações mensal, trimestral e semestral, e o início pode ser feito com qualquer uma delas.
Quais doses estão disponíveis no SUS?
A leuprorrelina é usada em 3,75 mg mensal, 11,25 mg trimestral ou 45 mg subcutânea semestral. A triptorrelina segue 3,75 mg mensal, 11,25 mg trimestral ou 22,5 mg semestral, e a gosserrelina tem implantes de 3,6 mg e 10,8 mg.
Como monitorar e quando suspender?
A sequência abaixo segue o protocolo do SUS. Ela organiza o que medir e quando, do início do bloqueio à suspensão.
- Reavaliar Tanner, estatura e efeitos adversos a cada 3 a 6 meses;
- Dosar LH após estímulo antes da dose seguinte, esperando valor abaixo de 4 UI/L;
- Repetir a radiografia de mão e punho a cada 12 meses para seguir a idade óssea;
- Encurtar o intervalo ou subir para 7,5 mg mensal quando o controle for insatisfatório;
- Discutir a suspensão com idade óssea perto de 12,5 anos em meninas e 13,5 anos em meninos.
Perguntas frequentes sobre puberdade precoce
Algumas perguntas se repetem entre pais e médicos durante o bloqueio puberal. As respostas abaixo vão direto aos pontos práticos.
O sangramento após a primeira dose indica falha do tratamento na puberdade precoce?
Não, o estímulo inicial do agonista pode provocar sangramento vaginal após a primeira aplicação. Se o sangramento se repetir nas doses seguintes, o bloqueio precisa ser reavaliado com LH e exame físico.
Quanto tempo depois de parar o análogo vem a menarca?
A menarca costuma ocorrer entre 6 e 18 meses após a suspensão, enquanto o eixo se reativa. Nesse período seguem consultas semestrais para medidas e avaliação da retomada puberal.
A puberdade precoce deixa consequências na vida adulta?
Há maior prevalência de obesidade, resistência insulínica e síndrome dos ovários policísticos nessas pacientes. Transtornos emocionais como ansiedade e depressão também aparecem mais, o que justifica seguimento além da endocrinologia.
Pais podem pedir o bloqueio sem indicação clínica?
A vontade de adiar a menstruação não é critério para usar análogo de GnRH. A conversa precisa esclarecer que a puberdade é fisiológica e que o tratamento tem início e fim definidos.
Toda telarca antes dos 8 anos é puberdade precoce?
Não, parte das meninas tem telarca isolada, sem aceleração do crescimento nem avanço de idade óssea, e não evolui. O seguimento a cada 3 a 6 meses diferencia esse quadro da forma progressiva.
Puberdade precoce no consultório: da dúvida ao bloqueio certo
O caso que mais tira o sono é a menina de 7 anos e 10 meses com broto mamário e LH basal no limite, acompanhada de uma mãe que já decidiu que quer a injeção. Nessa zona cinzenta, tratar demais expõe a criança sem ganho, e tratar de menos compromete centímetros que não voltam.
A decisão fica segura quando o médico sabe de cor os cortes de LH, a leitura da idade óssea e os critérios de progressão da puberdade precoce. O livro Endocrinologia Pediátrica: Guia Prático de Diagnóstico, Conduta e Doses reúne esses critérios e as doses em formato de consulta rápida para o consultório.