A escala RASS (Richmond Agitation-Sedation Scale) vai de +4, o paciente combativo, a −5, o que não desperta nem com estímulo físico. Ela transforma a impressão de “bem sedado” em um número reproduzível, que orienta titulação, despertar diário e rastreio de delirium.
Na passagem de plantão, “sedado e confortável” pode descrever quem abre os olhos ao ser chamado ou quem não reage à fricção esternal. Sem número, o propofol segue na mesma vazão por dias, e o excesso só aparece quando o desmame atrasa.

Como aplicar a escala RASS passo a passo?
A pontuação depende de uma sequência fixa de estímulos, do mais leve ao mais forte. O exame leva menos de um minuto e precisa ser igual para toda a equipe.
Qual a ordem correta do exame?
Cada etapa só é feita se a anterior não definiu o escore. Começar pelo estímulo físico acorda o paciente e faz a sedação parecer mais leve do que realmente é.
- Observar o paciente por cerca de 30 segundos sem tocá-lo, pontuando de 0 a +4 se estiver alerta ou agitado;
- Se não estiver alerta, chamar pelo nome em voz alta e pedir que abra os olhos e olhe para o examinador;
- Contar o contato visual: mais de 10 segundos é −1, menos de 10 segundos é −2 e movimento sem contato visual é −3;
- Sem resposta à voz, sacudir o ombro e, se nada acontecer, friccionar o esterno;
- Movimento ou abertura ocular ao estímulo físico vale −4, e nenhuma resposta a voz ou toque vale −5.
O que significa cada nível da escala RASS?
A tabela resume os dez níveis descritos no artigo original de validação da escala. O lado positivo mede agitação, o negativo mede profundidade de sedação, e o zero é o paciente calmo e alerta.
| Pontuação | Termo | O que se observa |
|---|---|---|
| +4 | Combativo | Violento, risco imediato para a equipe |
| +3 | Muito agitado | Puxa ou remove tubo e cateteres, agressivo |
| +2 | Agitado | Movimentos sem propósito, briga com o ventilador |
| +1 | Inquieto | Ansioso, com movimentos não agressivos |
| 0 | Alerta e calmo | Tranquilo e atento |
| −1 | Sonolento | Desperta à voz e mantém contato visual por mais de 10 s |
| −2 | Sedação leve | Desperta à voz, contato visual por menos de 10 s |
| −3 | Sedação moderada | Movimento ou abertura ocular à voz, sem contato visual |
| −4 | Sedação profunda | Não responde à voz, mas se move ao estímulo físico |
| −5 | Não despertável | Sem resposta à voz ou ao estímulo físico |
Qual meta da escala RASS prescrever para cada paciente?
A diretriz PADIS da Society of Critical Care Medicine sugere sedação leve, e não profunda, para a maioria dos adultos em ventilação mecânica. A meta deve constar na prescrição como qualquer alvo terapêutico.
Quando a meta é sedação leve?
Para a maior parte dos pacientes, o alvo fica entre −2 e 0, com o doente tranquilo e capaz de interagir. Esse nível permite relatar dor, colaborar com o desmame da ventilação mecânica e reduz complicações dos próprios sedativos.
Quando se aceita RASS −4 ou −5?
Sedação profunda cabe na SDRA grave com assincronia refratária, na hipertensão intracraniana, no estado de mal epiléptico e no recém-intubado em curva de piora. O erro é estender essa meta ao pós-operatório simples.
Por que o bloqueio neuromuscular invalida a pontuação?
Sem resposta motora, o paciente curarizado sempre pontua −5, esteja sedado ou consciente e paralisado. A sedação profunda precisa ser garantida antes do bloqueador, e a vigilância passa a depender de sinais autonômicos e do índice bispectral.

Como a escala RASS guia a titulação e o despertar diário?
Agitação em paciente intubado muitas vezes é dor, e subir o hipnótico nesse cenário só esconde o problema. A lógica de analgesia primeiro pede aplicar BPS ou CPOT antes de mexer na sedação.
Como ajustar a bomba pela pontuação?
Uma estratégia prática é manter o opioide como base analgésica estável e titular só o hipnótico, reavaliando após cada mudança. Com midazolam em infusão contínua, o metabólito ativo se acumula na insuficiência renal e aprofunda o escore de um dia para o outro.
Como usar a escala RASS no despertar diário?
No ensaio de Kress, publicado em 2000, a interrupção diária dos sedativos reduziu a ventilação mecânica de 7,3 para 4,9 dias. A pontuação guia a interrupção diária de sedativos: desliga-se a bomba, reavalia-se o escore e, se houver agitação, reinicia-se com metade da dose anterior.
Quais erros comprometem a escala RASS na prática?
Boa parte das pontuações erradas nasce de detalhes de execução, e não de desconhecimento da escala. Os deslizes abaixo são os mais frequentes e mudam a conduta.
- Pontuar logo após bolus, aspiração traqueal ou banho, quando o escore reflete o evento e não a sedação basal;
- Tratar RASS +2 com mais hipnótico sem investigar dor, hipóxia, retenção urinária ou abstinência;
- Considerar RASS −1 ou −2 como resultado ideal sem rastrear delirium hipoativo;
- Registrar o número sem a meta ao lado, o que impede saber se a bomba deve subir ou descer.
Como a escala RASS se liga ao CAM-ICU?
A pontuação abre o rastreio de delirium: com −4 ou −5, o CAM-ICU não é aplicado e o paciente é reavaliado depois. De −3 a +4, segue-se para o teste de atenção, e o manejo do delirium na UTI começa pela revisão dos sedativos.
Em quem a pontuação perde precisão?
Surdez, barreira de idioma, lesão ocular e afasia por AVC dificultam avaliar o contato visual. Nesses casos, a equipe registra a limitação e combina um critério único de resposta.
Perguntas frequentes sobre escala RASS
Residentes e plantonistas de UTI costumam trazer as dúvidas abaixo sobre a pontuação. As respostas vão direto ao que muda a prescrição do dia.
Qual a diferença entre a escala RASS e a de Ramsay?
A escala de Ramsay, de 1974, tem seis níveis, só um deles para agitação. A RASS tem dez níveis, separa agitação de sedação e usa o contato visual para refinar a gradação.
Com que frequência aplicar a escala RASS?
O mínimo aceitável é duas vezes ao dia, mas avaliar a cada turno de seis horas é mais seguro no paciente crítico. Toda mudança de vazão também pede nova pontuação.
A enfermagem pode pontuar a escala RASS?
Pode e deve, porque a escala foi validada com médicos e enfermeiros, com boa concordância entre eles. O ganho aparece quando o número é discutido na visita multidisciplinar.
RASS 0 significa que o paciente está sem dor?
Não, porque a escala mede apenas agitação e nível de consciência. Paciente calmo pode ter dor relevante, e a analgesia precisa de escala própria.
O que fazer com RASS −5 sem sedativo em curso?
É preciso pensar em acúmulo de fármaco, hipercapnia, distúrbio metabólico, crise não convulsiva ou lesão estrutural. Exame neurológico, gasometria e, conforme o caso, tomografia e eletroencefalograma definem o passo seguinte.
Escala RASS escrita na prescrição, e não só na folha de controle
Um cenário comum é a folha de enfermagem com “RASS −5” anotado por quatro turnos seguidos, enquanto a prescrição mantém a mesma vazão sem meta definida. A escala RASS só muda desfecho quando alguém compara o número com o alvo e decide descer a bomba.
Essa decisão exige conhecer farmacologia e o momento certo de aprofundar ou clarear a sedação. O Manual Prático de Sedação Avançada reúne esse raciocínio com doses, associações e protocolos prontos para a beira do leito.