O tratamento do transtorno de pânico costuma começar tarde, depois de várias idas ao pronto-socorro com eletrocardiograma normal e a frase “não é nada”. Quando o diagnóstico finalmente é feito, o paciente já evita ônibus, elevadores e academia, e a agorafobia virou parte do quadro.
O erro que mais derruba a adesão acontece na primeira semana: o antidepressivo é iniciado na dose cheia e o paciente, sensível a qualquer sensação corporal, sente inquietação e taquicardia. Interpreta isso como piora, abandona o remédio e passa a acreditar que “antidepressivo não funciona” para ele.

Como confirmar o diagnóstico antes do tratamento do transtorno de pânico?
Ataque de pânico é sintoma, e pode surgir em fobias, depressão ou uso de substâncias. O transtorno exige ataques recorrentes e inesperados, seguidos de pelo menos um mês de preocupação com novos ataques ou mudança de comportamento para evitá-los.
Quais critérios definem um ataque de pânico?
O ataque atinge o pico em minutos e reúne pelo menos 4 de 13 sintomas, como palpitação, sudorese, tremor, falta de ar, dor torácica, tontura, parestesias e medo de morrer ou enlouquecer. Ataques com menos sintomas são chamados de ataques limitados e também entram na avaliação.
Que causas orgânicas precisam ser excluídas?
Antes de iniciar o tratamento do transtorno de pânico, algumas condições que imitam o quadro precisam ser afastadas. A lista reúne as mais frequentes e o que costuma denunciá-las na consulta.
- Hipertireoidismo, com perda de peso e tremor, em que o tratamento do hipertireoidismo resolve a ansiedade;
- Arritmias paroxísticas, que pedem eletrocardiograma e, se preciso, Holter;
- Hipoglicemia em diabéticos e síndromes vestibulares com vertigem rotatória;
- Café em excesso, energéticos, pré-treino e estimulantes, perguntados de forma ativa;
- Abstinência de álcool ou de benzodiazepínico, que precipita ataques em horas.
Qual é a primeira linha no tratamento do transtorno de pânico?
As opções com maior nível de evidência são os ISRS, a venlafaxina e a terapia cognitivo-comportamental, e a combinação de remédio com terapia costuma superar cada uma isoladamente. A diretriz australiana e neozelandesa de transtornos ansiosos detalha essas recomendações.
A tabela traz doses usuais em adultos, com início abaixo do habitual para depressão. Os valores servem de referência e devem ser ajustados à idade, às comorbidades e às interações.
| Fármaco | Dose inicial no pânico | Faixa terapêutica usual |
|---|---|---|
| Sertralina | 25 mg/dia | 50 a 200 mg/dia |
| Escitalopram | 5 mg/dia | 10 a 20 mg/dia |
| Paroxetina | 10 mg/dia | 20 a 40 mg/dia |
| Venlafaxina de liberação prolongada | 37,5 mg/dia | 75 a 225 mg/dia |
Qual antidepressivo escolher primeiro?
Sertralina e escitalopram são escolhas frequentes pela eficácia, tolerabilidade e baixo potencial de interação. O raciocínio de escolha do antidepressivo de primeira linha vale aqui, considerando peso, função sexual, sono e resposta prévia de familiares.
Por que começar com metade da dose?
Pacientes com pânico percebem a ativação inicial dos serotoninérgicos como um novo ataque. Começar com metade da dose e subir após uma a duas semanas reduz o abandono, e avisar sobre esse efeito antes da primeira tomada é parte do tratamento.

Qual o papel da terapia no tratamento do transtorno de pânico?
A terapia cognitivo-comportamental é tão eficaz quanto o antidepressivo e reduz o risco de recaída depois da alta. Programas estruturados costumam ter de 8 a 12 sessões, com tarefas entre os encontros.
O que a terapia cognitivo-comportamental faz no pânico?
Ela começa pela psicoeducação sobre o ciclo em que uma sensação corporal é interpretada como catástrofe e gera mais medo. Depois vêm a reestruturação dessas interpretações, a exposição interoceptiva, que provoca de propósito sensações como taquicardia, e a exposição gradual aos lugares evitados.
Benzodiazepínico ainda tem espaço?
Tem espaço limitado, como ponte curta nas primeiras semanas enquanto o antidepressivo não age, em dose baixa e com data para parar. O uso prolongado traz tolerância, prejuízo cognitivo e dependência, e quem já chega usando há anos precisa de desmame gradual do benzodiazepínico.
Como conduzir o tratamento do transtorno de pânico ao longo dos meses?
A resposta ao antidepressivo começa a aparecer em duas a quatro semanas, mas a remissão completa costuma levar de 8 a 12 semanas em dose adequada. O roteiro abaixo organiza as decisões desde a primeira consulta até a alta.
- Confirmar o diagnóstico, excluir causas orgânicas e rastrear depressão, bipolaridade e uso de álcool;
- Explicar o mecanismo do ataque e o efeito de ativação inicial antes de prescrever;
- Iniciar ISRS ou venlafaxina em meia dose e subir até a faixa terapêutica em uma a duas semanas;
- Reavaliar em quatro a seis semanas e otimizar a dose antes de concluir que houve falha;
- Manter o fármaco por 6 a 12 meses ou mais após a remissão e retirar de forma gradual.
O que fazer quando não há resposta?
Antes de trocar, vale conferir adesão, dose, tempo de uso, consumo de cafeína e comorbidades como depressão maior. Se a falha se confirma, as opções são outro ISRS, venlafaxina, associação com terapia ou um tricíclico como a imipramina.
Como evitar a recaída na retirada?
A redução deve ser lenta, ao longo de semanas, principalmente com paroxetina e venlafaxina, que causam sintomas de descontinuação. Tontura e irritabilidade nessa fase podem ser confundidas com recaída, e o paciente precisa saber disso antes de reduzir a dose.
Perguntas frequentes sobre tratamento do transtorno de pânico
As dúvidas abaixo são frequentes em consultório e na atenção primária. Cada resposta traz a orientação prática para a próxima consulta.
O tratamento do transtorno de pânico precisa sempre de remédio?
Não, quadros leves a moderados podem ser tratados só com terapia cognitivo-comportamental estruturada. O antidepressivo entra quando há agorafobia importante, depressão associada, preferência do paciente ou falta de acesso à terapia.
Quanto tempo dura o tratamento do transtorno de pânico?
Depois da remissão, o antidepressivo costuma ser mantido por 6 a 12 meses ou mais, conforme a gravidade e as recaídas prévias. A retirada precoce, logo após a melhora, está entre as causas mais comuns de recaída nos meses seguintes.
Clonazepam sublingual na crise resolve?
Alivia a crise, mas reforça a ideia de que o paciente só sobrevive ao ataque com o comprimido na bolsa. O uso de resgate frequente deve ser substituído pelo manejo aprendido na terapia e pelo antidepressivo em dose adequada.
Transtorno de pânico aumenta o risco de suicídio?
Sim, sobretudo quando há depressão, uso de álcool ou outras comorbidades. A avaliação do risco de suicídio deve fazer parte da primeira consulta e das reavaliações.
Atividade física ajuda no pânico?
Ajuda, e a OMS inclui exercício estruturado e técnicas de manejo de estresse entre as intervenções para o transtorno. As recomendações da OMS para ansiedade e pânico também desaconselham benzodiazepínico de rotina.
Tratamento do transtorno de pânico que chega à alta
Há um retorno que todo psiquiatra reconhece: o paciente conta, quase surpreso, que voltou a pegar o metrô sozinho e esqueceu o comprimido de resgate em casa. Chegar a esse ponto no tratamento do transtorno de pânico depende de acertar a dose inicial, sustentar a manutenção e saber conduzir a retirada.
Essas decisões pedem segurança clínica que se constrói com casos discutidos e diretrizes interpretadas por quem atende. A Pós-Graduação em Psiquiatria do Instituto CDT dedica uma disciplina aos transtornos ansiosos, com psicofarmacologia e psicoterapia trabalhadas lado a lado.