Em 8 de setembro de 2026, a Anvisa anunciou o registro do Aquipta (atogepanto), da AbbVie, e o tema atogepanto enxaqueca entrou na pauta de quem trata cefaleia. O comprimido previne crises em adultos com quatro ou mais dias de enxaqueca por mês (Resolução-RE 3.458/2026).
O número que chama atenção é modesto quando lido direito: no estudo ADVANCE, a dose de 60 mg reduziu 4,2 dias de enxaqueca por mês, contra 2,5 dias com placebo. A diferença real atribuível ao fármaco foi de 1,7 dia, e é esse dado que deve orientar a expectativa conversada com o paciente.

O que a Anvisa aprovou no atogepanto enxaqueca?
O registro cobre um antagonista oral do receptor do peptídeo relacionado ao gene da calcitonina (CGRP), da classe dos gepantos. Até aqui, a prevenção dirigida ao CGRP no Brasil dependia de anticorpos monoclonais injetáveis mensais ou trimestrais.
Como age o atogepanto?
O CGRP é liberado pelas fibras trigeminais durante a crise e participa da vasodilatação meníngea e da sensibilização central. O atogepanto ocupa o receptor desse peptídeo de forma contínua com uma tomada diária, reduzindo a frequência de novos episódios.
Qual é a indicação exata no Brasil?
O texto oficial está no comunicado da Anvisa sobre o registro. A indicação vale para adultos com quatro ou mais dias de enxaqueca por mês, nas formas episódica e crônica.
Quais estudos sustentam o atogepanto enxaqueca?
Dois ensaios de fase 3 financiados pela fabricante, com 12 semanas de tratamento, embasam o registro. A tabela resume os desfechos primários publicados.
| Estudo | População | Atogepanto 60 mg/dia | Placebo | Diferença |
|---|---|---|---|---|
| ADVANCE (NEJM, 2021) | Episódica, 4 a 14 dias/mês | −4,2 dias/mês | −2,5 dias/mês | −1,7 dia |
| PROGRESS (Lancet, 2023) | Crônica, basal ~19 dias/mês | −6,9 dias/mês | −5,1 dias/mês | −1,8 dia |
Qual foi o resultado na enxaqueca episódica?
No ADVANCE, as doses de 10, 30 e 60 mg superaram o placebo, com redução de 3,7, 3,9 e 4,2 dias mensais, respectivamente. Os dados completos estão no resumo do estudo ADVANCE no PubMed.
E na enxaqueca crônica?
No PROGRESS, os pacientes partiam de cerca de 19 dias de enxaqueca por mês, e o placebo sozinho reduziu 5,1 dias. A dose de 60 mg uma vez ao dia chegou a 6,9 dias, como mostra o artigo do PROGRESS indexado no PubMed.

Quem é candidato ao atogepanto enxaqueca na prática?
O fármaco não muda os critérios para iniciar prevenção, que continuam os mesmos da indicação da profilaxia da enxaqueca. O que muda é o leque de opções quando betabloqueador, topiramato ou amitriptilina falham ou não são tolerados.
Quando pensar no gepanto antes do anticorpo?
A via oral atrai quem tem aversão a injeção ou prefere suspender rapidamente em caso de gestação planejada ou evento adverso. O anticorpo monoclonal tem meia-vida longa, o que é conveniente para adesão, mas prolonga a exposição após a interrupção, ponto discutido no texto sobre profilaxia com anticorpos anti-CGRP.
O que conferir antes de prescrever?
Os critérios abaixo evitam indicar um preventivo caro para a cefaleia errada. A lista segue a ordem em que costumam aparecer na consulta.
- Diagnóstico de enxaqueca confirmado, e não cefaleia tensional ou cervicogênica mal classificada;
- Diário de cefaleia com pelo menos quatro dias de enxaqueca por mês;
- Rastreio de uso excessivo de analgésicos ou triptanos, que perpetua a cronificação;
- Revisão de medicamentos que inibem ou induzem o CYP3A4, via de metabolização do fármaco.
O que ainda não muda com o atogepanto enxaqueca?
O registro sanitário não resolve o acesso, porque o preço ainda depende da CMED e não há data de lançamento. Também não há incorporação ao SUS nem cobertura obrigatória pelos planos até que processos próprios sejam concluídos.
Quais efeitos adversos acompanhar?
Nos estudos de atogepanto enxaqueca, constipação e náusea foram os eventos mais frequentes, com cerca de 10% cada na dose de 60 mg no PROGRESS, contra 3% e 4% no placebo. Houve ainda perda de peso de 7% ou mais em 6% dos tratados, dado que merece registro no seguimento.
Como avaliar se o tratamento funcionou?
No seguimento de atogepanto enxaqueca, a resposta se mede em dias de crise por mês, comparando o diário basal com o das semanas de uso. A sequência abaixo organiza a reavaliação.
- Registrar dias de enxaqueca e de analgésico nas quatro semanas anteriores ao início;
- Manter o diário durante as primeiras 8 a 12 semanas de tratamento contínuo;
- Calcular a redução percentual e considerar resposta uma queda de pelo menos 50%;
- Rever diagnóstico, adesão e abuso de analgésicos antes de trocar de classe.
Perguntas frequentes sobre atogepanto enxaqueca
As perguntas abaixo são as que mais aparecem após a notícia do registro. As respostas se limitam ao que os estudos publicados e o comunicado oficial sustentam.
O atogepanto enxaqueca serve para tratar a crise aguda?
Não, a indicação aprovada é preventiva, com uso diário contínuo. A crise continua sendo tratada com analgésicos, anti-inflamatórios ou triptanos, respeitando o limite de dias de uso por mês.
Qual dose de atogepanto enxaqueca foi estudada?
Na forma episódica, foram testadas 10, 30 e 60 mg uma vez ao dia, e na crônica, 60 mg uma vez ao dia e 30 mg duas vezes ao dia. A posologia registrada no Brasil deve ser conferida na bula aprovada.
O atogepanto substitui a toxina botulínica na enxaqueca crônica?
Não há estudo comparando diretamente as duas estratégias. A toxina segue o protocolo de aplicação em pontos fixos, e a escolha depende de perfil, preferência e acesso, como nos procedimentos de cabeça e cervical para dor crônica.
Pode associar com outro preventivo?
Os ensaios de registro avaliaram o fármaco isoladamente contra placebo. A associação com preventivos orais clássicos é decisão individual, sem dados robustos de superioridade até aqui.
O remédio já está nas farmácias?
Ainda não, porque a aprovação sanitária não equivale a lançamento comercial. A disponibilidade depende da definição de preço pela CMED e da decisão da fabricante.
Atogepanto enxaqueca e o diário que ninguém preencheu
A cena é conhecida: o paciente chega pedindo o comprimido novo, mas não sabe dizer quantos dias de crise teve no último mês. Sem esse número, é impossível indicar, avaliar resposta ou justificar troca, e a novidade sobre atogepanto enxaqueca vira mais uma tentativa às cegas.
Decidir entre gepanto, anticorpo, toxina ou preventivo clássico exige raciocínio clínico sobre cefaleia e farmacologia da dor. A pós-graduação em Medicina da Dor do Instituto CDT trabalha essas escolhas com casos reais, do diagnóstico diferencial ao seguimento do preventivo.