Em 28 de agosto de 2026, o European Heart Journal publicou a 5ª definição universal de infarto, documento conjunto de ESC, ACC, AHA e World Heart Federation. A numeração de tipos 1 a 5, usada desde 2007, dá lugar a três categorias: infarto primário, secundário e relacionado a procedimento.
Quem já tentou classificar um “tipo 2” no prontuário do pronto-socorro conhece o problema que motivou a mudança. Os próprios coordenadores reconheceram, no comunicado oficial da ESC, que a terminologia numérica era complexa e pouco usada pelos clínicos.

O que muda na definição universal de infarto de 2026?
A troponina continua sendo o eixo do diagnóstico, mas a classificação passa a seguir o mecanismo fisiopatológico. O objetivo declarado é que a categoria reflita o raciocínio clínico feito à beira do leito e oriente o tratamento.
Quais são as três novas categorias?
O infarto primário decorre de doença coronariana aguda, como ruptura de placa, dissecção espontânea de coronária, espasmo ou trombose. O secundário resulta de desequilíbrio entre oferta e demanda de oxigênio causado por outra condição aguda, e o relacionado a procedimento ocorre até 30 dias após intervenção percutânea ou cirurgia cardíaca.
Por que dissecção e espasmo mudaram de lugar?
Na 4ª definição, dissecção espontânea e vasoespasmo apareciam entre os mecanismos do infarto tipo 2. Agora entram no infarto primário, por serem patologias coronarianas agudas, o que deve facilitar o estudo da dissecção espontânea em mulheres, hoje subdiagnosticada.
Como aplicar a definição universal de infarto no pronto-socorro?
A primeira separação continua sendo entre lesão miocárdica e infarto. Uma troponina isoladamente elevada indica lesão, mas não confirma infarto sem o contexto clínico de isquemia.
O que é lesão miocárdica aguda na nova versão?
É a subida e/ou queda de troponina I ou T com pelo menos um valor acima do percentil 99 específico por sexo. O limiar diferenciado busca corrigir o subdiagnóstico de infarto e de outras lesões cardíacas em mulheres, e o laboratório precisa informar esses pontos de corte.
Como organizar o raciocínio diante da troponina alta?
A sequência abaixo resume a lógica de classificação e evita o rótulo apressado. Ela se encaixa em fluxos rápidos como o protocolo 0/1 hora de troponina.
- Confirmar valor acima do percentil 99 específico por sexo do ensaio usado;
- Documentar se há curva de subida ou queda entre as dosagens seriadas;
- Buscar isquemia em sintomas, imagem e eletrocardiograma, sem esquecer o infarto de parede posterior;
- Definir o mecanismo provável entre coronariano agudo, outra condição aguda ou procedimento.

Quais critérios da definição universal de infarto mudaram?
Além das categorias, o documento revisou conceitos que afetam laudos, pesquisa e codificação. A tabela compara os pontos principais com a versão anterior.
| Tema | 4ª definição (2018) | 5ª definição (2026) |
|---|---|---|
| Classificação | Tipos 1, 2, 3, 4a–4c e 5 | Primário, secundário e relacionado a procedimento |
| Limiar de troponina | Percentil 99, com sexo recomendado | Percentil 99 específico por sexo incorporado |
| Infarto pós-procedimento | Múltiplos de troponina como critério | Exige evidência de complicação coronariana |
| MINOCA | Infarto sem obstrução coronariana | Lesão miocárdica sem obstrução, diagnóstico provisório |
| Codificação | Sem alinhamento dedicado | Códigos próprios na CID-11 |
O que muda no infarto relacionado a procedimento?
Os múltiplos de troponina deixam de funcionar como critério confirmatório após angioplastia ou cirurgia. Passa a ser exigida evidência de complicação coronariana, e em certos cenários nova alteração segmentar de contratilidade ou perda de miocárdio viável na imagem.
Por que o MINOCA foi renomeado?
A sigla agora significa lesão miocárdica com coronárias não obstrutivas, tratada como diagnóstico intermediário. A mudança obriga a seguir investigando depois da coronariografia sem obstrução.
As hipóteses abaixo são as que a ressonância e a revisão da angiografia costumam separar. Cada uma leva a tratamento e prognóstico diferentes.
- Miocardite aguda, com realce tardio de padrão não isquêmico;
- Síndrome de takotsubo, com alteração de contratilidade fora de um território coronariano;
- Infarto verdadeiro por placa não obstrutiva, espasmo ou dissecção espontânea;
- Lesão secundária a sepse, embolia pulmonar ou taquiarritmia sustentada.
O que a definição universal de infarto muda na rotina?
A nova definição universal de infarto não altera, por si só, a conduta imediata diante de supradesnivelamento de ST ou de instabilidade. O que muda é o nome dado ao diagnóstico, a investigação da causa e o que vai para o prontuário e para a codificação.
O eletrocardiograma perde importância?
Não, o eletrocardiograma segue indispensável para reconhecer isquemia e decidir reperfusão. Os padrões de infarto agudo do miocárdio no ECG continuam valendo, inclusive os equivalentes que escapam ao olhar rápido.
Onde ler o documento completo?
O texto integral e os materiais de apoio estão na página da definição universal de infarto da ESC. Ali estão o artigo, os slides educativos e a versão para pacientes, útil para explicar o diagnóstico.
Perguntas frequentes sobre definição universal de infarto
As dúvidas abaixo são as que mais aparecem entre emergencistas e clínicos desde a publicação. Cada resposta se limita ao que o documento e os comunicados oficiais descrevem.
A nova definição universal de infarto já vale no Brasil?
O documento é internacional e passa a servir de referência imediata para laudos, pesquisa e ensino. A adoção em protocolos institucionais e na codificação depende da implantação local da CID-11.
O antigo infarto tipo 2 virou infarto secundário?
Em grande parte, sim, quando o desequilíbrio entre oferta e demanda vem de outra condição aguda, como taquiarritmia ou hipotensão. Dissecção espontânea e espasmo, porém, migraram para o infarto primário.
A definição universal de infarto muda o tratamento da síndrome coronariana aguda?
A classificação não substitui as diretrizes de tratamento, mas o nome correto orienta a conduta. O infarto primário segue o manejo da síndrome coronariana aguda, enquanto o secundário exige corrigir a causa desencadeante.
Toda troponina alta em paciente séptico é infarto?
Não, a elevação sem isquemia caracteriza lesão miocárdica, que pode ser aguda ou crônica. Só há infarto secundário quando existe evidência de isquemia associada ao desequilíbrio de oferta e demanda.
O que acontece com o infarto de morte súbita, o antigo tipo 3?
Os comunicados oficiais não detalham como a morte súbita sem troponina disponível entra nas três categorias. Até a leitura do texto integral, vale registrar o mecanismo presumido e os achados que o sustentam.
Definição universal de infarto e o laudo que volta para revisão
A cena se repete na auditoria de prontuários: troponina discretamente elevada, idoso com pneumonia e o diagnóstico de infarto registrado sem qualquer menção a isquemia. Com a definição universal de infarto reorganizada, esse rótulo passa a ser questionado, e a insegurança ao classificar recai sobre quem assinou.
Separar lesão de infarto, reconhecer o mecanismo e decidir reperfusão são competências centrais do emergencista. A pós-graduação em Medicina de Emergência do Instituto CDT treina esse raciocínio com casos de dor torácica, eletrocardiograma e troponina.