O tratamento do crupe viral começa quase sempre de madrugada, com uma criança de 1 a 3 anos, tosse ladrante, rouquidão e estridor que assustou os pais. A laringotraqueobronquite, causada principalmente pelo vírus parainfluenza, costuma ser autolimitada, mas o edema subglótico pode estreitar uma via aérea que já é pequena.
Quantas vezes a criança sai com prescrição de inalação com soro, antibiótico e xarope, e nenhuma dose de corticoide? Essa é a inversão mais comum: o que tem evidência fica de fora, e o que entra não muda o curso da doença.

Como classificar a gravidade antes do tratamento do crupe viral?
A gravidade orienta tudo, da necessidade de adrenalina ao tempo de observação. O escore de Westley é o mais usado, com pontuação que vai de 0 a 17.
Quais itens entram no escore de Westley?
O escore soma estridor (0 a 2), retrações (0 a 3), entrada de ar (0 a 2), cianose (0 a 5) e consciência (0 ou 5). Até 2 é leve, 3 a 5 é moderado, 6 a 11 é grave e 12 ou mais indica falência iminente.
Que sinais afastam o diagnóstico de crupe?
Febre alta com aspecto toxêmico, sialorreia e posição de tripé sugerem epiglotite ou traqueíte bacteriana. Início súbito sem pródromo aponta para corpo estranho, e estridor recorrente ou em menores de 6 meses pede investigação de anomalia estrutural.
Qual corticoide usar no tratamento do crupe viral?
A dexametasona oral em dose única é a base do tratamento do crupe viral em todas as gravidades, inclusive no leve. A revisão Cochrane sobre glicocorticoides no crupe mostrou redução de cerca de metade nas revisitas e internações, com internação encurtada em cerca de 15 horas.
Qual a dose de dexametasona?
A dose clássica é 0,6 mg/kg por via oral, em dose única, que o posicionamento da Sociedade Canadense de Pediatria mantém como padrão. Um ensaio australiano de 2019 não encontrou diferença entre 0,15, 0,3 e 0,6 mg/kg no crupe leve a moderado, e muitos serviços usam 0,15 mg/kg nesses casos.
Existe alternativa à dexametasona oral?
A prednisolona oral é opção quando não há dexametasona, e a via intramuscular serve para a criança que vomita ou não aceita medicação oral. A budesonida nebulizada também funciona, mas somá-la à dexametasona não trouxe benefício extra. Dose única dispensa desmame, ao contrário de outros cenários de prescrição de corticoide na prática.

Quando a adrenalina entra no tratamento do crupe viral?
A adrenalina nebulizada é reservada para crupe moderado ou grave, com estridor em repouso ou tiragem. Ela reduz o edema da mucosa por vasoconstrição, mas não trata a doença, apenas compra tempo até o corticoide agir.
A tabela reúne as doses e o tempo de ação das drogas com evidência. Ela ajuda a montar a prescrição no próprio leito, sem depender de memória.
| Medicamento | Dose | Início de ação | Observação |
|---|---|---|---|
| Dexametasona oral | 0,15 a 0,6 mg/kg, dose única | Cerca de 2 horas | Indicada em todas as gravidades |
| Prednisolona oral | 1 a 2 mg/kg | Horas | Alternativa na falta de dexametasona |
| Adrenalina 1:1000 nebulizada | 0,5 mL/kg, máximo 5 mL | 10 a 30 minutos | Efeito some em cerca de 2 horas |
| Budesonida nebulizada | 2 mg | Horas | Opção em quem vomita |
Por quanto tempo observar após a adrenalina?
O efeito dura pelo menos uma hora e desaparece em cerca de duas, com risco de retorno do estridor. Por isso a criança deve ficar de 2 a 4 horas em observação depois da última nebulização antes de qualquer decisão de alta.
Quando pensar em internação ou UTI?
Necessidade de mais de uma ou duas doses de adrenalina, estridor em repouso persistente ou hipoxemia pedem internação. Agitação que dá lugar a sonolência, cianose e queda do esforço respiratório indicam falência iminente, cenário de intubação orotraqueal pediátrica com tubo meio número menor que o previsto.
O que não funciona no tratamento do crupe viral?
Boa parte das condutas habituais não tem respaldo e ainda atrasa o que funciona. Conhecer essa lista evita prescrições que só geram custo e falsa segurança.
- Nebulização com soro fisiológico ou ar umidificado, que não melhorou escores em ensaios clínicos;
- Antibióticos, indicados apenas diante de suspeita real de traqueíte bacteriana;
- Beta-2 agonistas, que não atuam no edema subglótico e só aumentam a taquicardia;
- Antitussígenos e descongestionantes, sem benefício e com risco de sedação em lactentes;
- Heliox de rotina, que tem evidência limitada e fica restrito a casos graves selecionados.
Como conduzir o crupe leve na emergência?
O crupe leve recebe dexametasona e alta após breve observação, sem necessidade de nebulização. Os pais precisam de orientação clara sobre sinais de retorno, e a febre, quando presente, segue o manejo da criança febril na emergência.
Qual a sequência no crupe moderado a grave?
A ordem abaixo reduz o risco de agitar a criança e piorar a obstrução. A calma do ambiente faz parte do tratamento.
- Manter a criança no colo do responsável, evitando exame de orofaringe e punções desnecessárias;
- Oferecer oxigênio se a saturação estiver abaixo do alvo, sem forçar máscara;
- Nebulizar adrenalina 1:1000 na dose de 0,5 mL/kg, até 5 mL;
- Administrar dexametasona oral ou intramuscular logo em seguida;
- Reavaliar o escore de Westley e observar por 2 a 4 horas após a adrenalina.
Perguntas frequentes sobre tratamento do crupe viral
As dúvidas abaixo surgem tanto na emergência quanto no retorno ambulatorial da criança. As respostas refletem as recomendações atuais e vão direto à conduta.
O tratamento do crupe viral precisa de raio X?
Não, o diagnóstico é clínico, e a radiografia cervical fica para quando há dúvida sobre corpo estranho ou abscesso. O clássico sinal da torre de igreja nem sempre aparece e não muda a conduta.
A dexametasona pode ser repetida no dia seguinte?
A dose única costuma bastar, porque a meia-vida longa cobre o pico dos sintomas. Repetir fica reservado a casos que persistem com estridor e sempre após reavaliação médica.
O tratamento do crupe viral muda em menores de 6 meses?
As drogas são as mesmas, mas a faixa etária é atípica e aumenta a suspeita de estenose subglótica ou hemangioma. Esses lactentes merecem observação mais longa e avaliação otorrinolaringológica se o quadro se repetir.
Qual a diferença entre crupe e bronquiolite?
O crupe é obstrução alta, com estridor inspiratório e tosse ladrante, enquanto a bronquiolite afeta vias baixas, com sibilos e crepitações. A conduta na bronquiolite grave não inclui corticoide nem adrenalina de rotina.
Quando a criança pode receber alta?
A alta é segura quando não há estridor em repouso, a saturação está normal e a criança aceita líquidos. Os pais devem saber voltar se o estridor reaparecer em repouso, se houver cianose ou se a criança ficar sonolenta.
Tratamento do crupe viral sem inalação de soro
A cena que se repete é a mãe voltando na noite seguinte com a mesma receita de nebulização com soro e xarope, e a criança ainda com estridor. Uma dose de dexametasona no primeiro atendimento teria evitado a revisita, e o tratamento do crupe viral bem feito cabe em poucas linhas.
A dificuldade real está em decidir, às 4 horas da manhã, se a criança que melhorou com a adrenalina pode ir para casa. A Pós-Graduação em Emergências Pediátricas e Neonatais trabalha obstrução de via aérea alta, escores e critérios de alta com casos de plantão pediátrico.