Vasopressor no choque cardiogênico: qual a melhor escolha

vasopressor no choque cardiogênico

choque cardiogênico é uma das situações de maior mortalidade na emergência e na UTI, definido pela falência do débito cardíaco em suprir as demandas metabólicas teciduais apesar de volemia adequada. A escolha do vasopressor no choque cardiogênico não é simples: errar o agente, a dose ou a sequência pode custar a vida do paciente.

Neste artigo, com base no Manual Prático de Agentes Vasoativos do Dr. Thiago Amorim e na literatura científica atual, você vai entender a lógica por trás de cada agente e como aplicá-la na beira do leito.

O que define o choque cardiogênico?

O choque cardiogênico é caracterizado por hipoperfusão orgânica consequente à disfunção da bomba cardíaca.

Em termos práticos, os critérios são pressão arterial sistólica < 90 mmHg por mais de 30 minutos (ou necessidade de suporte para manter esse nível), índice cardíaco reduzido (IC < 2,2 L/min/m²) e sinais de hipoperfusão como oligúria, extremidades frias, tempo de enchimento capilar alargado e hiperlactatemia.

Vale lembrar que existe o choque cardiogênico normotensivo — PA sistólica > 90 mmHg, mas com evidência clara de hipoperfusão. A hipotensão não é critério obrigatório.

As causas incluem IAM, insuficiência cardíaca aguda descompensada, miocardite, síndrome de Takotsubo e complicações mecânicas do infarto.

A classificação SCAI (Society for Cardiovascular Angiography and Interventions) estratifica a gravidade do estágio A (risco) ao estágio E (colapso refratório), orientando o escalonamento terapêutico.

Identificando o perfil hemodinâmico antes de escolher o vasoativo

Antes de escolher o vasopressor no choque cardiogênico, é fundamental identificar o perfil do paciente. O Manual de Agentes Vasoativos classifica os pacientes com insuficiência cardíaca em quatro perfis: Perfil A (quente e seco, ICC compensado), Perfil B (quente e úmido, congestão sem baixo débito), Perfil C (frio e úmido, congestão com baixo débito) e Perfil L (frio e seco, baixo débito sem congestão).

O Perfil C é a apresentação clássica do choque cardiogênico: extremidades frias, tempo de enchimento capilar prolongado, congestão pulmonar e frequentemente hipotensão. É aqui que a escolha do agente vasoativo é determinante.

Qual o melhor vasopressor no choque cardiogênico?

A escolha do agente vasoativo no choque cardiogênico depende do perfil hemodinâmico, da pressão arterial de chegada e da presença ou não de disfunção ventricular associada. Os principais agentes disponíveis são a noradrenalina, a dobutamina, a milrinona, o levosimendan e a vasopressina — cada um com indicações, doses e cuidados específicos.

Noradrenalina: vasopressor de primeira linha

A noradrenalina é o vasopressor de escolha no choque cardiogênico com hipotensão. É um poderosíssimo agonista alfa que causa vasoconstrição periférica, aumenta o retorno venoso e eleva a pressão de perfusão coronariana pelo aumento da pressão diastólica.

No estudo SOAP II, demonstrou menor mortalidade e menos arritmias que a dopamina em pacientes com choque cardiogênico — resultado confirmado por revisão publicada na Revista Portuguesa de Cardiologia.

Diluição padrão: 4 ampolas (16 mg) + 234 ml de SG5% → 64 mcg/ml. Iniciar a 5 ml/h e titular a cada 5 minutos. Objetivo: PAm > 65 mmHg. Puncione pressão arterial invasiva assim que possível ao escalonar doses.

Dobutamina: inotrópico central no perfil C

A dobutamina age nos receptores beta1 cardíacos aumentando a contratilidade, com discreto efeito beta2 vascular que reduz a resistência sistêmica e a pós-carga.

Como resume o Manual de Agentes Vasoativos, “pensou em choque cardiogênico, pensou em dobutamina — mesmo que você tenha que associar uma nora antes para elevar a pressão arterial”.

Diluição padrão: 1 ampola (250 mg) + 230 ml de SF → 1 mg/ml. Iniciar a 2,5 a 5 mcg/kg/min e titular pelo tempo de enchimento capilar e aquecimento de extremidades.

O algoritmo prático do Manual de Agentes Vasoativos define a sequência pela PAm de chegada: PAm < 65 mmHg exige noradrenalina primeiro — só acrescentar dobutamina quando a PAm superar 65 mmHg; PAm entre 65 e 90 mmHg permite dobutamina diretamente; PAm > 90 mmHg indica vasodilatadores venosos (nitroprussiato ou nitroglicerina) para reduzir pós-carga.

A progressão no perfil C hipotenso segue esta lógica: inicia nora → PAm > 65 mmHg → acrescenta dobutamina → titula pelo TEC e perfusão → PAm > 90 mmHg, inicia desmame da nora → retira nora → avalia nitroprussiato → desmame da dobutamina conforme melhora clínica. Uma regra importante: nunca use noradrenalina e nitroprussiato simultaneamente.

Milrinona e levosimendan: quando os receptores beta não bastam

Milrinona e levosimendan são inotrópicos não adrenérgicos, com ação independente dos receptores beta — o que os torna especialmente úteis em pacientes em uso de betabloqueador, nos quais a resposta à dobutamina é reduzida, e em pacientes com disfunção ventricular direita associada.

A milrinona inibe a fosfodiesterase III, aumentando AMPc e contratilidade com vasodilatação arterial e venosa significativa. Reduz a resistência vascular pulmonar, sendo vantajosa na disfunção do VD. Dose de infusão contínua: 0,125 a 0,750 mcg/kg/min. Evitar em isquemia miocárdica ativa e ajustar dose em nefropatas (83% de excreção renal).

O levosimendan sensibiliza os canais de cálcio no miocárdio por mecanismo não adrenérgico, com metabólitos ativos que prolongam o efeito hemodinâmico por 7 a 9 dias após a infusão de 24 horas. Dose: 0,05 a 0,2 mcg/kg/min.

Contraindicado em hepatopatas e nefropatas graves (ClCr < 30 ml/min) e com histórico de Torsades de Pointes.

Dopamina: por que evitar?

A dopamina foi o vasopressor padrão por décadas no choque cardiogênico, mas foi progressivamente abandonada. A subanálise do estudo SOAP II mostrou maior mortalidade e significativamente mais arritmias com dopamina em comparação à noradrenalina nos pacientes com choque cardiogênico.

Como orienta o Manual de Agentes Vasoativos: use a dopamina apenas quando não houver noradrenalina disponível no serviço.

vasopressor no choque cardiogênico

Tabela comparativa dos agentes vasoativos no choque cardiogênico

AgenteMecanismoIndicação principalCuidados
NoradrenalinaAgonista alfa (vasoconstrição)Vasopressor de 1ª linha com hipotensãoMonitorar PAi em doses crescentes
DobutaminaBeta1 (inotrópico) + beta2 leveInotrópico de 1ª linha no perfil CAssociar nora se PAm < 65 mmHg
MilrinonaInibidor PDE III (inodilatador)Beta-bloqueados, disfunção VDEvitar em isquemia ativa; ajustar em nefropatas
LevosimendanSensibilizador de cálcio (inodilatador)Beta-bloqueados, efeito prolongado 7-9 diasEvitar em hepato/nefropatas graves
DopaminaDose-dependente (dopa > beta > alfa)Alternativa sem noradrenalina disponívelMais arritmias e mortalidade vs. nora
VasopressinaReceptores V1/V22º vasopressor no choque refratárioDesmame lento; monitorar natremia

Manejo por fenótipo ventricular

A escolha do vasoativo também deve considerar qual ventrículo está falhando predominantemente, pois cada fenótipo tem implicações terapêuticas distintas.

Na disfunção ventricular esquerda dominante, a combinação padrão é noradrenalina como vasopressor e dobutamina como inotrópico, evitando sobrecarga hídrica. Nos casos refratários, considerar suporte mecânico com Impella ou balão intra-aórtico (BIA).

Na disfunção ventricular direita, preferir vasopressina como vasopressor (não eleva a resistência vascular pulmonar como os agonistas alfa1) e milrinona ou levosimendan como inotrópicos, que reduzem a resistência pulmonar. No fenótipo biventricular — o mais grave — frequentemente é necessária VA-ECMO como suporte circulatório total.

Perguntas frequentes sobre choque cardiogênico e vasopressor

As dúvidas mais comuns sobre vasopressor no choque cardiogênico na prática clínica.

Pode usar dobutamina sem nora no choque cardiogênico hipotenso?

Não é recomendado quando a PAm está abaixo de 65 mmHg. A dobutamina possui efeito vasodilatador periférico (beta2) que pode piorar a hipotensão. O protocolo é claro: inicie nora, estabilize a PAm acima de 65 mmHg e só então acrescente a dobutamina.

Epinefrina pode ser usada no choque cardiogênico?

Pode, como terceira droga quando nora + dobutamina não são suficientes. Porém, a epinefrina eleva o lactato hepático — impossibilitando o uso do lactato sérico como marcador de resposta ao tratamento — e aumenta o consumo miocárdico de oxigênio com risco de isquemia.

Vasopressina tem papel no choque cardiogênico?

Não é de primeira linha, mas pode ser associada como segundo vasopressor no choque refratário com doses elevadas de noradrenalina.

Tem a vantagem de não elevar a resistência vascular pulmonar, sendo especialmente útil quando há disfunção ventricular direita. Desmame deve ser lento — 0,01 UI/min a cada 30 minutos — para evitar hipotensão rebote.

Como saber se o coração precisa de inotrópico?

O ecocardiograma é o método mais objetivo. Como enfatiza o Manual de Agentes Vasoativos, “uma das maneiras mais corretas de indicar a dobutamina é através de um ecocardiograma”.

Sinais clínicos de baixo débito (TEC > 2 segundos, extremidades frias, oligúria) combinados a lactato elevado e SvcO2 baixa embasam a decisão antes do ECO estar disponível. Não adicione dobutamina de forma empírica sem confirmação de disfunção cardíaca.

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Saber escolher o vasopressor certo no choque cardiogênico — na dose certa, na sequência certa e com raciocínio fisiopatológico claro — é o que separa o médico que atua com segurança daquele que atua por tentativa e erro.

O Manual Prático de Agentes Vasoativos do Dr. Me. Thiago Amorim reúne mais de 10 anos de experiência em UTI em linguagem direta, com diluições práticas, anotações pessoais e os casos reais que a faculdade não ensina. Da adrenalina ao levosimendan, do choque séptico ao cardiogênico: garanta o seu exemplar aqui.

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